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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Tragédia no Sahara

João-Afonso Machado, 26.04.20

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As praias portuguesas este ano vão andar excessivamente regimentais. Os banheiros (agora galardoados em nadadores-salvadores) de fita métrica a medir a distância da minha toalha à de qualquer simpática cinquentona... De modo algum! E pensando numa Europa toda igualmente profilática e maçadora, ocorreram-me outros areais  alternativos de veraneio. O Sahara, por exemplo: os seus oásis, as tâmaras, saltitantes roedores, o entorpecente andar dos dromedários, noites inteiras de boites e dança do ventre... Fui até lá, em missão de reconhecimento.

Mas grande se afigurou a desilusão. Logo na abordagem do primeiro oásis (a lembrar um pouco as nossas ETAR's, achei), à vista de umas pedras a fritarem ao sol, uma família de caracois, esses velhos conhecidos de outras lutas. Aproximei-me, na ânsia de entabular conversa. De máscara, é claro, no Sahara toda a gente as usa. E os caracois suspeitosamente quietinhos, silenciosos, talvez não dominassem o dialecto local, caracois acanhados, conclui, quiçá caracois pocaricenses.

Na realidade - crudelíssima realidade! - apenas caracois mortos de recente data. A família toda. Infelizes! Apanhados em cheio pela inclemência do sol.

Pensei telegrafar para a Pocariça, transmitindo a fatalidade. Já as formigas pairavam em circulos funestos, agoirentas e necrófagas, sobre os cadáveres. Sustive a mensagem. Poderiam as vítimas ser refugiados oriundos de outras misérias. E na Pocariça seria o pânico, os de lá estão todos confinados, como iriam efectuar a conferência dos seus cativos?

O tempo tudo explicará. Mas aqueles gasterópodes sucumbidos à insolação, pais e filhos, pasto de vis himenópteros, impressionou-me, revoltou-me. E apanhei a camioneta para o turismo de montanha, agora esperançoso em répteis e aves.