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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Major Sal e a trégua pascal

João-Afonso Machado, 14.04.20

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O Royal Warwickshire Regiment combatia com toda a bravura. Varria, dizimava com a sua artilharia de campanha aquela infecta mescla tribal. Major Sal rejubilava com a disciplina dos seus comandados e a sua audácia. Porém, num breve intervalo entre tantas emboscadas, em pleno campo fortificado, topou o pequeno antílope negro, mascote do Regimento. E ocorreu-lhe:

- Bloody Hell! It´s the Easter in Portugal!

Como que logo aspirou inauditos aromas. Chorou our dear Spring, as glicínias, all the lovely catholic costums. E a sua boa mesa também.

Houve quem afirmasse depois, caiu de tal jeito que o sabre se lhe espetou no rabo. Por cá, naturalmente, ninguém manifestou curiosidade pelas suas nádegas. Nem comentou a sua versão, algo diferente, envolvendo uma traiçoeira cutilada indígena. Apenas se lhe satisfez o apetite.

E Major Sal, enfastiado de tanto carneiro cozido bordejado por couve branca, também cozida, sem sal, tudo cozido sem sal, apenas com os secularmente maçadores molhos britânicos, - algo que ele se confessava muito baixinho no fundo da alma, temendo a despromoção, o pelotão de fuzilamento - Major Sal, faminto, sequioso, hipnotizado, capaz até de devorar Mrs. Felismaina, sentou à mesa, esqueceu o Ui! da praxe no contacto do ferimento com a cadeira, e rugiu, rasgou carnes e mastigou, mastigou, mastigou, tudo o que lhe puseram à frente: o cabrito assado com batatinhas (fora o bichinho que o trouxera lá dos longes orientais...), lots of cakes,

(- White cakes! Delicious! Thanks a lot!)

e no fim, after coffee, o pãozinho-de-ló e um wonderful vintage que Major Sal recebeu com um

-My God!!!

incapaz de articular outro dito qualquer.

Sentado na varanda ao sol ameno das Páscoas portuguesas, o frasco de cristal no chão, uma mão eterna no cálice e a outra às unhadas ao pão-de-ló, assim se deixou ficar a tarde inteira. Debalde lhe contaram a história das sopinhas deste doce embebido naquele néctar atiradas pelos frades lóios à populaça, aquando das forcas na Praça Nova do Porto. Dormia já profundamente...

Ao dia seguinte, depois de incontáveis pedidos de copos de água, despediu-se com emoção: que partia para uma morte gloriosa levando consigo Portugal no coração.

- Então até para o ano, Meidjor!

- Up for te year, fellows!