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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Como será no fim?"

João-Afonso Machado, 09.04.20

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O tempo vai excessivamente vagaroso nesta nossa ânsia de novidades boas. Mais a mais, Famalicão está sendo especialmente castigada na doença, com números acima de Guimarães ou de Oeiras, por exemplo. A vida por cá anda num silêncio quase sepulcral. Com uma boa nota: o tom afável, a disciplina nas filas à porta dos supermercados, a britânica observância das regras cautelares sobejamente recomendadas. Em todos os olhares sobrando compreensão, benevolência, solidariedade.

Vivemos um momento ímpar da História contemporânea. Deus quererá, a grande maioria de nós terá oportunidade de a contar aos vindouros. O médio prazo será doloroso, como talvez nunca antes, pobre coitada da nossa endemicamente débil economia!, mas para já o importante é ganhar a guerra da Saúde.

Entretanto vamos aprendendo. Se mais não for a estarmos a sós connosco. Entre campos e bosques, ainda que povoando apenas a nossa imaginação. Ou assumidamente dentro de casa. Viver é ler, é, mais ainda, pensar. Projectar e prevenir. Avaliar. Colocarmo-nos no lugar de quem sofre para melhor compreender o sofrimento. O mundo tem estranhas formas de evolução, perante as quais o conformismo não é, seguramente, o remédio ideal. Esquecendo nunca o fatal princípio – não há efeito sem a sua respectiva causa…

Posto em cima de um penedo, os velhos parceiros de caça – canídeos, pois claro, – arfando da corrida no monte, tudo me ocorre espreitando em redor. Torga cantava - «Na tarde calma ondula/A invisível ramagem de um poema/Uma sentida brisa,/Que apenas se adivinha,/Percorre o mundo íntimo das coisas/E acorda em sobressalto/As folhas do silêncio».

E eu no verso de Torga leio esse apelo à meditação. Sobre as coisas e sobre as pessoas. Sobre prioridades. Sobre o plurissecular duelo entre a humildade e o orgulho. Sobre todos os parâmetros por que se hão de guiar vidas afinal tão frágeis, tão permeáveis à doença. Aquilo que a «sentida brisa» deveria primeiro «acordar em sobressalto» era a verdade e o compromisso. No fundo, a serenidade do «silêncio das folhas».

Na realidade, o que todos querem para si mas se negam dar aos seus semelhantes. Um ancestral motivo de incompatibilidades. Algo que, em casos extremos de alarme, como o que nos atormenta o Presente, nunca poderia acontecer – mas acontece.

Tomado assim de pensamentos mais bisonhos, desci abaixo do penedo e volvi embora. Valem-me, por norma, os cães – jamais vi um abandonar o seu dono, acontecendo amiúde o inverso… – como companhia no regresso. Isto está para durar, insisto, e é o que se ouve nas caminhetas. Deve ser assim, deve. Não que agora as frequente muito, às caminhetas, abeirando-me, somente, por necessidade de alimento, do supermercado, onde as filas cá fora continuam longas – e sempre compreensivas, benevolentes e solidárias.

Ou na rua ou com a minha mente, concluo. Só no desconhecido vingarão as raízes do que for amanhã. No termo deste longo dia de tormenta.

A todos, nesta Páscoa diferente, o meu voto de que a saibamos viver com fé e esperança.

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas in Opinião Pública de 09.ABR.2020)