Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Quando eu fugi de casa...

João-Afonso Machado, 17.03.20

TORDEIA.JPG

... Dei comigo no parque da cidade, aliás repleto de outros fugitivos. E lá congeminei, não uma valente caminhada, mas, tão-só, umas horas ao ar livre - santa liberdade! - sob o arvoredo, de máquina fotográfica em riste a apontar à passarada.

Não fora a mira torta, os muitos botões e a minha ignorância, o sol não se iria embora. Desapareceu, todavia, à conta de tantas funções do aparelho e das saudades de um rolo, as mesmas das canetas, na escrita, sempre bem afiadas e de bica aberta.

Ainda assim houve tempo. Felizmente: as imagens são as ideias e estas a nascente das lições. É como eu vivo.

Por isso, dominada a besta, surgiu então a tordeia. A uma razoável distância do tiro, que não saiu completamente mal. Poisada num galho, serena mas atenta, a tordeia ofereceu-me o corpo e encheu a minha alma de claros, inequívocos, dizeres. Recados breves, rectilíneos, simplesmente sábios.

Quais fossem eles, o mundo é isto: uma doença, a ameaça de uma carga de chumbo, dependendo do alvo. (Li-lhe nos olhos um certo desprezo pelos humanos medos...) E nem vale a pena tentar modificar esse mundo, vale somente aceitá-lo como é. Defendendo-nos, sem nos matarmos com a defesa.

Tudo explicado, a tordeia foi-se. Fugindo corajosamente sem meias palavras. Fugindo, apenas. Num alarido de asas a bater porque cumpriu a sua vontade - estava no seu direito - e, sorte dela, não se lhe atravessou uma espingarda na frente. Dera a sua lição, a grande e tão honesta tordeia!