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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A Taberna do Quinzena

João-Afonso Machado, 03.02.20

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Depois de meses de jejum prolongado e contrariado, dei comigo na Azambuja em fértil maré de faisões. Na véspera, Santarém e a busca para o jantar de um grupo numeroso, havia de ser coisa alegre, corridinha e saborosa.

O nosso chefe, o nosso guia, o velho M. M., ordenou a Taberna do Quinzena, uma das três escalabitanas, fora as mais, Cartaxo fora, e até no grande Hotel. A escolhida era a primitiva. Daí a história.

Noite sem luz, casa sem iluminação exterior. Como se gosta e sonha.

Mas eu não escreveria não tivesse conhecido o patrão e a saúde que fizemos a El-Rei nosso Senhor. Já não vou no pitoresco... Vou em quem é português do tempo em que Portugal não morreu. E foi depois desse copo, pela vida de todos nós, que vim cá fora, tirei um retrato e volvi dentro, a saber mais coisas.

A Taberna do Quinzena, já o disse, prolifera em Santarém. Mas é velha de 148 anos e o seu fundador, Francisco Baptista, vulgo o "Quinzena", merceava então, aceitando pagamentos dos clientes de quinze em quinze dias, o que lhe valeu o epíteto. O neto, o Sr. Fernando Baptista, comanda presentemente as operações, numa frente muito mais vasta. Ei-lo a mostrar-me a sua "bula", de um rigor sumo-pontificial, prenho de sageza como as páginas bíblicas.

De início, além das vendas dos géneros alimentares, ali se bebiam uns copos também. Quem vai à fonte, à fonte leva sede... E ali se conversava e jogava, fossem cartas, fosse o dominó. São o demónio, estes primórdios! Ainda há três décadas, na Taberna não entravam senhoras.

Marialvismos, usos disformes do nosso Minho. Certo é, damas de toda a reputada consideração nortenha, vão lá três dias, fidalgas até mais não, entraram de rompante na Taberna do Quinzena e assenhorearam-se da conversa. Quem isto afirma, prudentemente se recolhia a falar em azul riscado em papel, pela ponta de uma caneta, a ouvir, a ouvir, transcrevendo como qualquer tabelião. Mas a petiscar, orientado por conselhos sublimes acerca de grelhados. E sequioso.

Em meu redor, nas paredes, uma inteireza de cartazes tauromáquicos, alguns já quase centenários; fotografias de celebridades - reconheci muitas... - quase todas elas descansando da vida dos vivos; e, avantajando-se, um óleo monumental de Diamantino Vizeu. Olé!!! A nossa sala de repasto (uma entre tantas) parecia, cheirava a arena.

Que mais dizer? O Sr. Baptista, a amabilidade em gente. Os preços módicos. A barriguinha cheia. Mais uma saúde a El-Rei. E um negócio, percebe-se, de vento em popa, com o vinho a soprar muito de feição, de boa cêpa (- Este é Casa do Cadaval... - Eu prefiro a Casa Real - É como eu! Eu também!)

A noite findou num grande abraço. A manhã seguinte pertencia aos faisões. Tudo somado, isto é o Ribatejo, quase tanto como o Minho.

 

Soltas de faisões e o dedo desemperrado

João-Afonso Machado, 01.02.20

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Uma época toda sem um tiro e um fantasma - os olhos, os óculos, - de toda a parte vinham notícias de caçadas, batidas, uma metralha de proezas. Os faisões de Vale de Fornos foram a grande desforra já quando tudo acaba e se faz fé no reatar dos dias de antigamente.

Correu bem, a espingarda mexia-se, fazia cálculos rápidos, disparava a cortar-lhes a passagem. Perdi a conta aos que ficaram - o que, afinal, é o menos.

Uma véspera com um jantar genuinamente ribatejano. Ainda hei de voltar a ele, merece página própria, louvores e votos de vida longa. O hotel, uma noite bem dormida, a Azambuja. Os amigos de sempre. E depois dos tiros, outra almoçarada de arromba, com um regresso ao Minho cogitando sobre uma dieta imperiosa.

Como explicar o importante destas horas passadas em bando acirrado contra outro bando, o dos faisões? Não era pior guardar algumas ideias sobre uma forma de comunhão chamada amizade; e outra, de subsistência, chamada caça. Tudo expressões do nosso ser já com uns milénios de prática... Em Vale de Fornos e entre os seus convidados, haverá almoços melhorados e dispensando a ida ao supermercado para comprar as coxas de um frango que nasceu e cresceu entalado entre tantos e tantos e tantos iguais a si. As raposas e os saca-rabos deliciar-se-ão com algum faisão ferido, que à noite encontrem por lá. E, dos que escaparam aos tiros, quem sabe qualquer casalinho galináceo se encontra num belo galho de uma alta árvore e ali iniciam um amor intenso, mas fugaz como costuma ser a existência de todas as aves?

Bem vistas as coisas, com algum divertimento acrescido, limitamo-nos a não tolher o ciclo natural: quiçá chegará o dia de alguma jibóia me apanhar em plena sesta e assim cumprir o seu instinto, triturando-me os ossinhos todos. Valha-nos Deus, ninguém está seguro, há sempre um mais forte e mais predador!

 

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