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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Soltas de faisões e o dedo desemperrado

João-Afonso Machado, 01.02.20

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Uma época toda sem um tiro e um fantasma - os olhos, os óculos, - de toda a parte vinham notícias de caçadas, batidas, uma metralha de proezas. Os faisões de Vale de Fornos foram a grande desforra já quando tudo acaba e se faz fé no reatar dos dias de antigamente.

Correu bem, a espingarda mexia-se, fazia cálculos rápidos, disparava a cortar-lhes a passagem. Perdi a conta aos que ficaram - o que, afinal, é o menos.

Uma véspera com um jantar genuinamente ribatejano. Ainda hei de voltar a ele, merece página própria, louvores e votos de vida longa. O hotel, uma noite bem dormida, a Azambuja. Os amigos de sempre. E depois dos tiros, outra almoçarada de arromba, com um regresso ao Minho cogitando sobre uma dieta imperiosa.

Como explicar o importante destas horas passadas em bando acirrado contra outro bando, o dos faisões? Não era pior guardar algumas ideias sobre uma forma de comunhão chamada amizade; e outra, de subsistência, chamada caça. Tudo expressões do nosso ser já com uns milénios de prática... Em Vale de Fornos e entre os seus convidados, haverá almoços melhorados e dispensando a ida ao supermercado para comprar as coxas de um frango que nasceu e cresceu entalado entre tantos e tantos e tantos iguais a si. As raposas e os saca-rabos deliciar-se-ão com algum faisão ferido, que à noite encontrem por lá. E, dos que escaparam aos tiros, quem sabe qualquer casalinho galináceo se encontra num belo galho de uma alta árvore e ali iniciam um amor intenso, mas fugaz como costuma ser a existência de todas as aves?

Bem vistas as coisas, com algum divertimento acrescido, limitamo-nos a não tolher o ciclo natural: quiçá chegará o dia de alguma jibóia me apanhar em plena sesta e assim cumprir o seu instinto, triturando-me os ossinhos todos. Valha-nos Deus, ninguém está seguro, há sempre um mais forte e mais predador!