Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Para os nossos cuidadores de doentes"

João-Afonso Machado, 09.01.20

A costumeira descontração dos portugueses, para não se trair, não deu por isso – o mundo muda aceleradamente. A todos os níveis e, designadamente, no plano das relações familiares. Cá em Portugal, ante a euforia profissional e o fracasso do desemprego, as gentes procuravam a sua independência, o apartamento mais funcional, a cidade, o desenrascanço. E para trás foram ficando, no antigo casario onde haviam criado os seus filhos, - os idosos; cada vez mais, em quantidade e longevidade, os idosos.

É de todos hoje sabido – vive-se mais tempo, o mundo laboral é mais absorvente, os solavancos da nossa economia não se compadecem com os regalos campestres de outrora. Os nossos dias são uma selva e não é justo sigamos as teorias de Darwin acerca da sobrevivência dos mais fortes.

Um trajecto imparável, este que refiro. Mas que só agora começa a ser patente. Como não acredito na bondade do Estado, acrescento a fatalidade da falha de meios para darmos albergue, bem-estar e alegria que dignifiquem os nossos idosos. Valham-nos muitas coisas, à cabeça das quais a Santa Casa da Misericórdia e os seus lares e instituições afins!

Entretanto, confrontamo-nos com o Presente e – sempre à portuguesa – ao improviso que ele nos impõe. Quase todos se deparam já com pais e avós incapacitados, desprovidos de autonomia, e a aflição que é zelar por eles entre as incontornáveis obrigações do trabalho e dos empregos. Quantos não abdicam desta fonte de rendimento para tratar do seu velhinho acamado, alimentá-lo à colherada, tratar da sua higiene! Ouvimos nas caminhetas, recorrentemente, histórias de quem passa o seu tempo à cabeceira de um doente entrevado; ou as aflições dos que têm a seu cargo pessoas já atacadas pela demência, em maior ou menor grau…

Foi neste contexto de emergência (face à ausência de respostas capazes dos poderes públicos) que, há meses atrás, nasceu a Associação da Casa da Memória Viva, iniciativa de um grupo de meia dúzia de famalicenses. Totalmente direcionada para a terceira idade, maxime, daqueles que já vão padecendo de doenças do foro neurológico, com todas as inerentes consequências.

A Casa da Memória Viva tem objectivos amplos, e um deles passaria pela criação de um «alfarrabista», um espaço de coisas antigas que os ajudasse a viverem um tempo que não é actual mas foi o deles: que os ajudasse a guardarem essa noção do tempo e do espaço, o lugar que por direito lhes assiste na vida mediante o emergir das suas recordações.

E, também, a desenvolver, reforçar e acautelar uma nova noção, um novo affaire surgente na nossa sociedade – o dos “cuidadores”. Pessoas que, remuneradamente ou não, abdicam de si para acompanhar – cuidar – de quem necessite.

Tarefa custosa, a requerer preparação específica. Formação. Tranquilidade e resistência psicológicas. Por todos os motivos de justiça, o seu retorno à vida de antes, uma vez dispensados os seus serviços. E os modos possíveis de descanso – trata-se de uma profissão de “rápido desgaste”…

Faltam meios. Falta gente. A Casa da Memória Viva carece de apoio, de financiamento e de uma sede em local adequado aos seus propósitos. O projecto é de Famalicão e para Famalicão. E esta crónica um apelo à diligência e ao contributo de todos os famalicenses.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas, in Opinião Pública de 09.JAN.2020)