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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Breve parábola

João-Afonso Machado, 15.12.19

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Nesse dia de nuvens carregadas, os notáveis iam chegando com a solenidade de antigamente. Assim desmontavam e penduravam os escudos em paredes graníticas, fazendo e recebendo vénias e salamaleques parecidos. Tudo conforme usos indiscutidos, conquanto pouco perceptíveis. Em crescendo, a assembleia compunha-se e, bem vistas as coisas, ninguém não era parente de alguém.

Mais difícil será recordar o tema de tão invernosa reunião. A chuva enchumbava os gibões e a discussão, como sempre, foi acesa, aqueceu-os. Já por cautela, nem espadas, nem adagas, no grande salão. Onde a Província se reunia e falava de si.

Os presentes - muitos. Desafiando a paciência e a diplomacia do capitão-mor e demais autoridades régias. Em obediência à Tradição, contrapunham-se os barbados de branco aos outros, mais juvenis, mas representando os mesmos poderes, os mesmos domínios.

Entre a experiência e o voluntarismo, assim decorreram os debates. Com ganho para as barbas menos venerandas.

Este o pequeno portrait de muitos séculos. Num lugar remoto, já vazio, à conta de tantos os exilados de um mundo onde até o granito chora e se desfaz em lágrimas e cai no desalento, levando consigo as mais elementares regras da sageza e do bom senso... Acresce dizer, aumenta o número dos exilados... não apenas nas infrenes águas mediterrânicas.

Os escudos, esses, ... caem também. E os cavalos são igualmente outros - assim fumegantes na hora fria dos desperdícios, mas muito mais poluentes.

Comentando os dias correntes, Simão dizia a Fortunato - Deus nos valha! - E Fortunato a Simão - Não blasfemes, se nós nada fazemos para seja o que for!...

E ambos deram uma derradeira espreitada no Tempo que ruira sem mais se conseguir erguer.