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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

As cativas

João-Afonso Machado, 06.07.19

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Quando os vikings atacaram o castelo de Vermoim deram, logo após a usual chacinazinha, com a sala de jantar. Desembrulharam então o bacalhau salgado que traziam e prepararam-se para o repasto, aliás bem regado com a cidra bebida pelos cranios dos vencidos.

Nessa altura, às largas portadas do salão imenso, afloraram as cativas - cativas em trespasse, visto que os de Vermoim as haviam capturado numa qualquer refrega com os sarracenos.

Os vikings nunca tinham visto senão o seu próprio umbigo, cascudo e arejado na maresia. Aqueloutros assemelhavam-se-lhes bastante mais macios e ágeis, de uma estética assaz ousada. Por seu turno, às cativas já aborreciam os nossos homens, sempre muito pressurosos da igualdade de direitos, excessivamente complacentes e respeitadores dessas magrebinas que preferem os guerreiros implacáveis e mandões. Assim, com acalorada insistência pediram aos vikings as incluissem no saque.

Acederam os saqueadores. E formando a hoste na estrada de Vimaranes, com as cativas à frente, felizes e bailadoras, passaram Vila Nova em inícios de Julho dessa medieva lonjura.Terão, aliviadíssimos, embarcado e aproveitado os bons ventos da Póvoa de Varzim. E já só no Mar do Norte se aperceberam as cativas da partida que a Escandinávia lhes pregava. Num arrepio imenso de frio, deixaram-se de sensualidades e adoptaram o fandango e o corridinho. Encharcados em cerveja (bebida sempre pela ampla colecção de cranios dos vencidos), os vikings sovaram-nas até à morte dessas danças tão cansativas. Doravante, no seu mundo, só valquírias e das mais peludas.