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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um recado para o Zé Colmeia

João-Afonso Machado, 16.05.19

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A notícia já correu o país de lés a lés e, reconheço, esta tua incursão tem tanto de simpático como de corajoso. Não é qualquer urso pardo que se atreve a enfrentar o tigre Tuga e a sua felina fome de predação.

Deixa-te, por isso, caro amigo, andar por Montesinho - e sempre com o maior cuidado a atravessar as estradas, onde o tigre Tuga revela o seu maior potencial de morte. Esquece as remotas Astúrias, cujos caminhos de regresso já nem deves lembrar, mas deixa sempre aberta a porta da Sanábria. Pelo sim, pelo não... Toma o rumo nocturno de Vinhais, aponta a Chaves porque em Ourense já não te olharão como um garrido papagaio.  Se insistires em aventurar-te mais em território nacional, abriga-te na Gralheira. Eu, entretanto, vou ter contigo.

Sim, vou porque, cá para baixo, o mundo está de um infernal desassossego, vergado ao braço pilhador da Internet e dos políticos e da gasolina. E come-se cada vez pior. Sigo já para Bragança e é coisa de mais momento, menos momento. O restante está pensado: pela noitinha vamos ao mel (não esqueças, as abelhas são-me letais, entretem-te com elas, eu rapo os favos todos). Nos ribeiros das montanhas, muito à americana, a minha cana de pesca a montante, as tuas sapatadas a jusante, e o banquete de trutas está garantido. Lá para a frente, será a maré das castanhas que me são fáceis de tirar dos ouriços e assar.

Depois chegará o Inverno. Aí, meu velho, temos de ponderar a situação - tu hibernas, eu tenho frio; tu não comes, eu não dispenso o jantarinho diário. Provavelmente virei nessa altura às minhas terras, a ver o que sobra do abandono em que as deixei.

Mas antes serão umas belas passeatas e desculparás a minha máquina fotográfica. Corta-me é essas unhas enormes porque antevejo as tuas palmadas nas costas, os teus efusivos abraços. Pá! eu não sou o tigre Tuga...

Só uma última coisa: detesto formigas, qualquer tipo de insectos e raízes. E sushi. Se enveredas por tais artes culinárias, não te espantem dois ou três tiros de espingarda - sou eu nos passarecos (nada de atavismos, rapaz!) a cuidar da minha janta.

Se podemos, perguntas tu, fanar a comida aos turistas? Mas com certeza que sim, e sempre patrioticamente, Zé Colmeia!