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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Porta-aviões sobre carris

João-Afonso Machado, 17.04.19

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Estendi-me ao comprido no banco da gare da estação, e sonhei alguns quinze comboios. Eu, um antigo candidato a "engenheiro de comboios". Voaram o Alfa e o Intercidades, passaram dois "mercadorias", fizeram alto outros tantos suburbanos. Para norte e para sul. Ora vindos dos lados da Pampilhosa, ora procedentes ("procedentes" - este o termo adequado que já me faltava) de Coimbra, a dobrar a curva onde antes estavam as cancelas, o carreiro para a azenha.

A memória agarrada aos carris, antigamente chocalheiros, compassados, às vezes infindos naquelas composições ("composições" - outro membro da antiga nomenclatura), incapazes de cobrirem o saboroso aroma de Setembro e das figueiras. Em calções, vão lá quase cinquenta anos.

O chefe da estação, de quépi branco, como um almirante condenado ao continente, a sua farda castanha, como a da Ordenança local; o seu bastão, uma bandeira enrolada a sinalizar a paz da ferrovia. E eu com ele, ambos de sobreaviso. (- Menino, o comboio saiu agora da Pampilhosa - a dar-me tempo para me sentar no banco de pau da plataforma de então, e assistir ao desfile, a "composição" logo no início da recta, a chegar-se, a chegar-se a nós, o chefe impancte nas suas funções, merecedor de demorado louvor, a passagem um estrondo, mas caras que se viam, pescoços fora das janelas, vidas em movimento; ainda assim se manterão?)

Eram as minhas tardes em Souselas. As tardes de um neto do Senhor Eng., um peso pesado na CP. (Por isso a paciência do chefe com o puto.) No armazém junto de uma linha colateral, azuis amacacados descarregavam fardos...

E a estação, um edifício sem ser feio, branco, as portadas e janelas verdes, era a vida de uma família residente no andar cimeiro. Uma vida sedentária, como se avaliava pela dimensão das cuecas do chefe, postas a secar à banda. Já as da sua senhora, dormindo a mesma corda, não tão enormes, indiciavam mais movimento das pernas. Ela lavava a roupa, punha a secá-la, tratava da hortazinha cheia de couves, alface e outras vivazes. Mesmo junto ao jardinzinho bem tratado dos buxos, com flores coloridas e cheirosas, antecedendo as retretes (assim mesmo, "retretes", quais "sanitários" ou "WC's", a rimar à portuguesa com "cagadeiras"). Provavelmente, o chefe da estação, e os seus, saiam dali directamente para a reforma. Era uma vida toda.

Mas, ao som de uma voz gravada, automatizada, ergui a cabeça.O escritório do chefe aferrolhado. Onde o seu quépi? A bandeira enrolada? Agora comandam-nos por sons despersonalizados, e a estação é triste, a linha superlotada. Saber esperar, uma ciência perdida. No andar cimeiro do almirante em terra, ferroviário, o vácuo óbvio.

Cá pensei comigo: com o Avô aqui, em Souselas, em nada se mexia. E fui, resignadamente, deixando os comboios passar.