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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um tolo no meio das poldras?

João-Afonso Machado, 07.03.19

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Era noite muito escura, e horrivel o drama de Josefa, mãe escondida até à última hora. Filha de pais matadores pela honra... No momento do parto, a decisão foi de desespero. Fugiu, segundo vago aconselho, pelo trilho que seguiria «passadas as poldras do Tâmega».  Não parou, a ameaça dos pais no encalço. «Atormentavam-na dores outra vez, e sentia-se torvada, desfalecida e sem forças para transpor as poldras que não estavam perto». Mas, ao avistá-las, «teve vertigens e disse entre si "vou morrer" (...) Quis sentar-se em uma das poldras; e, na precipitação com que o fez para não cair, escorregou ao rio».

Encontraram-na horas depois. Morreria por efeito. É a indesmentivel narração de Camilo, em Maria Moisés das Novelas do Minho. Sempre a fantasmagoria da noite e dos ventos uivando como lobos, mai-las almas penadas do capitão-mor e de um ou outro demoníaco jacobino, desses que não perseguiam os franceses..

Não sei exactamente o que o Tâmega, e terras confinantes, guardam destes lances (por vezes com finais inviamente felizes). Mas as poldras continuam lá. Se alguém morre na travessia, as responsabilidades não caberão à Autarquia, que deixou cartazes volumosos a alertar os perigos. O rio é como é, entre as cheias e os dias apaziguados, e as pontes são agora para todos os gostos. É  no meio delas que os tolos se sentem bem, como imaginá-los no meio das poldras?

Pobre Josefa que, saltitando a fugir, nunca planeou morrer, pereceu de um deslize no molhado das pedras e a foram dar como certa no Inferno, depois do seu imaginário suicídio...

Os séculos não pararam, os momentos ribeirinhos tornaram-se menos agitados e as crianças ágeis e brincalhonas. Camilo, agora, teria de buscar temas diversos, conquanto o adultério esteja novamente muito na moda, e os seus olhos decerto se arregalassem, na tentativa, às vezes, de distinguir um macho de uma fémea.

 

 

Verín

João-Afonso Machado, 05.03.19

Uma cidade de fronteira, um arruamento imenso de passagem. Quase sempre, não obstante, num silêncio díficil de explicar.

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Um pouco mais de vento, um nada de calor, estariamos no Novo México. Mesmo dando de barato ser Carnaval.

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Mas é cabeça de concello. Verín. Uma terra amiga dos monárquicos portugueses que, aquando das Incursões, ali esperavam reforços, mantimentos, armas e munições antes de entrarem em território nacional, sempre com o beneplácito das autoridades locais. Ainda decerto o castelo não seria a pousada que é hoje.

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Verín é uma terra de sossego. De recantos. Sem que alguma arquitectura se destaque em especial mas detentora, provavelmente, de um record mundial em pedras armoriadas de enorme quilate:

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E depois o Tâmega. A montante, claro, do seu curso português, amplo, corredio,

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e, para não variar, mais transparente, de fundos pedregosos, mesmo a cheirar a peixe. Como já quase não há cá.

 

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 04.03.19

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Vi-te junto à muralha e uivaste, algo depois, cá em baixo, no badalar das horas da torre sineira. De dor, sem dúvida. Então conversámos. E lembrámos as derradeiras esperanças do Reino. Afinal eras português, outro exilado na Galiza. O dar da tua cauda foi o maior abraço de que me lembro.

As minhas barbas brancas são da cor das tuas. Ainda não sabemos vencer o Tempo, nem mesmo as mágoas. Mas a bandeira é imortal, o Antigo Testamento é uma mão cheia de escritos sobre alguém que um dia virá. Seja assim connosco também.

 

 

Tratado elementar do namoro

João-Afonso Machado, 01.03.19

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Natureza e metodologia - Assim o desejado parceiro do coração prescrutador poise nas imediações e relaxe. Um sorriso que lhe dirija, o mais tímido olhar, são já uma certeza de uma conquista bem sucedida. Mas, por vezes, a flor, dos sonhos ambicionadíssima, semicerra as pálpebras, encolhe-se, assobia para o lado. Será então necessário rodeá-la discretamente - jamais, em tais aflições, pedir logo o telemóvel - e dizer umas trivialidades, falar do tempo, subtilmente pular de galho em galho até muito perto. Mantendo sempre uma conversa mole com uma certa pitadinha de argúcia, malícia. Pipilar, aí está a arma secreta para vencer o obstáculo. Depois, como que acidentalmente, roçar as penas nas da amada. E aludir, num chilreio instantâneo, a grãozinhos de cereal ou aos bicharocos da fruta. A um jantar, enfim, à luz da vela.

Assim o Criador pensou a vida para milhões e milhões de gerações. É certo, as mais recentes gerações renegaram os sexos e, em nome do sexo, inventaram os géneros. Ignora-se ainda quantos, mas ele é aí um vaivém de provetas a substituir o insubstituível. Ainda embora, as espécies vão subsistindo, apenas a humana parece em vias de extinção.

O namoro é fulcral. Em cima das árvores, trinando logo aos primeiros alvores da Primavera. Seguir-se-à a intimidade do ninho, mas já somente na fase da procriação. No andamento puramente hedonista, os contendores bastam-se muitas vezes com o simples buraco nos muros, desde que não povoado por cobras e ratazanas. Uma variante, pois, sem muito para comentar.

O namoro nos fios de telefone (aditamento de estudo não obrigatório) - Eis uma prática antiga, já dificilmente encontrável, salvo talvez em ambientes retintamente rurais. Os fios de telefone, se não desapareceram, perderam funcionalidade. Claro, o namoro em ruínas transporta sempre consigo uma maior carga romântica; mas, em definitivo, esses cabos fininhos deixaram de obrar a intensa vibração que outrora antecipava, com tanta frequência, as recatadas delícias do ninho.

 

 

 

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