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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Transes alpinos

João-Afonso Machado, 16.03.19

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Era descomunal. Surgiu-me pela frente a quilómetros da minha espingarda mais próxima, num transe alpino, ventoso, gélido (porventura do medo, porque não reconhecê-lo?), enchendo o ar de ameaças e uma morte anunciada. As navalhas mais pareciam os cornos elípticos dos muflões. Bufava vapor. E soltava uns grunhidos enrolados, como se em banho-maria numa panela monumental.

Instintivamente deitei a mão a uma faca. Também a um tetradente ali deixado por alguém. Eram as minhas únicas defesas... E o javali avançava, em grunhidos enrolados, como se em banho-maria numa panela monumental.

Espetei-lhe a faca. Garfei-o no lombo. Estrebuchou, largando calor e aromas. Ao ponto de me queimar a pele, e, com o dele, quase partiu o meu marfim. Pedi auxílio, era muita coisa para um homem só, a boca ardia-me, ardia-me. Por que diabo fora parar tão longe e desarmado? E à cautela alcei a perna, não fosse levar alguma esquirolada na femural.

Estava eu em semelhantes aflições, surgiu o bom Amigo Sr. Azevedo (que faria ele ali, naquele transe alpino?). Consigo, uma garrafa toda de maduro tinto. - Aguente-se, aguente-se! Com esta ele vai!

E foi. Estendidinho, sossegado, estafado e estufado. Afogado em molho. Foi todo. Graças ao Sr. Azevedo - Descanse (dizia ele), descanse que está aqui em Requião, só entre boa gente. Vai agora um queijinho curado?