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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Lamprohiza, a santinha

João-Afonso Machado, 10.03.19

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A noite costumava ser negra, fechada, até a lua cheia se dava mal com ela. E os dias nevoentos, cacimbados, ameaçadoramente escorregadios. A Câmara Municipal não queria saber. Com lastimável frequência, as motorizadas, os automóveis, iam ribanceiras abaixo, a agitar aquelas terras tristes com a triste novidade da morte. As pessoas haviam já adquirido o hábito, e à noite, no café, bebiam mais uma aguardente para a viagem: senão pelo frio, pelo medo de um acidente.

Um dia os pirilampos passaram por ali, o Verão estava no seu melhor, a paisagem agradou-lhes. Resolveram parar, descansar um pouco a dar-se à procriação. Que prodígio de parideira, aquela fémea! Num instante de milhares de ovos, a mais tragicamente afamada curva da estrada, parecia nova, berrante, uma genuína pintura futurista. Irradiava luz, presença, vida. E até denunciava os postes eléctricos, a dormir a noite toda, sem ponta de utilidade.

Nunca mais alguém se queixou da escuridão. Somente os pirilampos - santa família! - protestam às vezes, os regressos nocturnos do café terminam não raro contra as suas paredes. De alegria - desculpam-se uns; do encadeamento causado por aquela inopinada luminosidade, confessam os outros.