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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Nos idos da euforia

João-Afonso Machado, 02.01.19

MANHÃ GEADA.JPG

Um manto imenso de silêncio deixou para trás os reveillons e o foguetório. Renasceram os jardins, pingando húmidos, e a luz é do sol, não das lâmpadas. Ouviu-se um pisco, muito atacado da garganta e do nariz, e a temperatura foi de férias com a geada a substitui-la. Aliás, contentíssima, sem milhares de pés a pisá-la, a atormentá-la esmagada em calores de solas.

O ser humano tornou à superfície. Atónito, em face das toneladas de papel nas avenidas e praças, mesmo uma ou outra cadeira já só com três pernas. E garrafas de espumante no vão das janelas.

Muito prática, com o cabelo atado em rabo de cavalo, já varria o chinfrim todo da noite de anteontem. Não antes por puro medo e falecimento de forças. Merecia uma palavra de apreço, tão prendada menina. Aos poucos, restabelecida a paz, as pessoas voltaram à conversa com nexo. Nas ruas circula-se sem precauções. Deixando a cidade, são agora os musgos que brilham e os fontenários novamente cantadores. Sob um sol discreto, ainda na fardamenta desta época mais enregelada.

De rabo de cavalo e vassoura desembaraçada, aplicadíssima, - a imagem entranha-se - bem podia vir por aí acima. Mesmo na orla dos caminhos, as folhas das árvores ainda gotejam, os líquenes doem, postas as mãos neles, em qualquer recanto um pano branco de geada persistente. Era só desatar o elástico, deixar os apetrechos e calçar um sorriso de alívio e boa disposição - afinal, a normalidade está de volta.