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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Os meus novos «Contos à Esquina»"

João-Afonso Machado, 15.11.18

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Entre muitas outras, houve em Famalicão, a rainha delas todas, a inolvidável Esquina. Era onde os cavalheiros da terra – então uma terra vagarosa, prazenteira, cheirando quase sempre a rojão – se encontravam e punham a conversa em dia. Nas cercanias do falecido Hotel Garantia e da antiga CGD, nessa Famalicão descontraída, sem relógio de pulso e indiferente a ruas e passeios, automóveis e peonagem. De modo que, não raro, as novidades iam já a meio da Adriano Pinto Basto (aliás, ainda macadamizada),  quando o sinaleiro – gordo, cinzento, farda de fanfarra – dava duas apitadelas e os nossos gentlemen volviam à realidade – lá longe, na direcção deles, avistava-se uma carripana qualquer.

Era essa Esquina que eu tinha em mente quando escrevi estes meus últimos contos. Em boa verdade, uma leitura que não atrasará a hora do almoço lá em casa. E sobre temas corriqueiros, como tantos de que nos apercebemos subindo as escadas do trabalho ou descendo os becos da memória, quando não assistindo às mais alvares demonstrações da estupidez on line.

São insignificâncias dessas que nos dão o mote. Nos tribunais, por exemplo, nem tudo é a aridez dos negócios. O sobretudo é a vida das pessoas. Estão lá muito os muitíssimos dramas que perpassam a vida de cada um. Não refiro – note-se – o que a Justiça claudica sob o jugo da iniquidade. Presenciei, apenas, uma mão grandemente cheia de esfarelados dias dos criminosos e das suas famílias. De seres humanos. E esse será um lado plausível da narrativa.

Tal qual a bestialidade de tantos e tantos, despojados de ideias e de ideais, de conceitos, princípios, crenças, motivações. Somente palradores. Defendendo-se deles próprios a tentar convencer o mundo de que navegam águas filosóficas, de uma inalcançável profundidade… Ao menos cimentassem dois tijolos, um sobre o outro… A Esquina é, sempre foi, um lugar pragmático, rigidamente seco e mordaz, aberto à saudável inovação, mas deserto implacável para a tolice desses quantos.

Por fim, o episódio de um reencontro trinta anos após. Com o alfaiate que servia o meu Pai, entretanto vergado às décadas, mas ainda capaz de costurar as calças do filho. Grato, emocionado, com a maior amizade e carinho. No derradeiro momento, uns meses antes da sua partida para o Além. No trajecto que todos havemos de seguir e o meu Pai também já rumou…

O Tempo é de Deus. Do Tempo sabe Ele. Da memória, que é o Tempo cá em baixo, sabemos nós. Aqueles que lutam contra o esquecimento, dito é, contra o inferno. A Humanidade tudo poderá, menos obstar aos ponteiros do relógio. Este é, quixotescamente, nos meus contos, o meu combate – de caneta em riste em prol da memória.

E os ditos Contos à Esquina sairão breve. Apresentá-los-ei cá. Eu teria o maior gosto em vê-los apreciados pelos meus conterrâneos famalicenses.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 15.NOV.2018)