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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Gizando no molhado

João-Afonso Machado, 12.11.18

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Toda a tarde os pingos se ouviram e, em tardes de chuva assim, domingueiras, lentas, de sentinela ao fogo da lareira, o tempo vagueia no gizar de planos. Sem alternativas. Longos planos das mais diversas proveniências, ora vindo dos rigores cerebrais, ora pulando irreflectidamente dos enredos do coração. Mas são estes os que melhor aplacam a melancolia destas horas que ouvimos, molhadas, chorar lá fora.

E sim, é a gizar planos de pormenor, com giz branco sobre a escuridão dos vidros das janelas, feitos lousas lavadas, escorregadias. O giz a voltar atrás, a querer fixar o plano, o giz a patinar na negrura do quadro, como antigamente nas manhãs escolares. Mas persistente, o malandro do giz, sempre a gizar, indo longe até encontrar eu sei bem quem, só não sei como.

- E quando? - perguntei-lhe. O giz sacudiu-se do seu pó branco, esfalfado, já só um toquinho depois de tanta gizadela, e mandou-me pegar na caneta (naquela tal, não em outra) - e que compusesse, não planeasse mais. Que lhe escrevesse a dizer, mais dia, menos dia vou aí buscar-te. Entretanto, somente caldos de galinha, queria ele dizer, dolentes movimentos da caneta (sempre a mesma), e alguma asneirita pelo meio, uns rabiscos fulgurantes, atrevidos como uma piscadela de olho.

Nisto ficámos, sendo quase horas de jantar, com a noite sempre a pingar, a pingar água e ideias brilhantes ou tolas, alguma vez se verá.