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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O bruxedo, o exílio e o beijo

João-Afonso Machado, 07.11.18

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De princípe a sapo a caminhada há de ser longa. E vagarosa, a penar os passos todos da maldição. O princípe, ainda muito inconformado com a sua nova condição, traz um olhar macambúzio, submisso, triste. E vai de noite, desajeitado, rezando para passar despercebido. A humidade é o remédio contra a sua sede, mas a pedra da calçada, onde só com tremenda ginástica não rasga a barriga, e uma parede adiante dão-lhe a cutilada final no ânimo. Em vão - o feitiço esvaziou-lhe a boca de palavras - chama pelo seu corcel. Este não virá. Resta-lhe a esperança, não venha, também, algum dos seus proverbiais inimigos - a coruja, o jacobino... É a angústia do resto de uma vida toda.

Não o merece quem debaixo daquela pele rugosa traz uma alma tão inofensiva e útil. Claro, para desfazer o bruxedo não serve um beijo de homem. O princípe não o aceitaria, por muito que se instale agora, em algumas escolas, uma versão contrária e totalmente imbecil do desfecho da história. E, em contrapartida, o nojo milenar das mulheres, atavicamente anti-patriota, impede-lhes o gesto salvífico. Não fora assim, ainda ontem, no terreiro cá de casa, se teria restaurado outra monarquia.