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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"O monarquismo de Afonso Lopes Vieira"

João-Afonso Machado, 03.11.18

AFONSO LOPES VIEIRA.JPG

Leiriense de nascimento, bacharel em Direito, e vivendo a sua vida em S. Pedro de Moel, Afonso Lopes Vieira (1878-1947) foi, no insuspeito juízo de António José Saraiva e de Óscar Lopes (in História da Literatura Portuguesa), «o mais dotado dos poetas tradicionalistas», retomando «alguns temas românticos da história e do lirismo português com uma versificação requintada». Já antes Fidelino de Figueiredo (in História Literária de Portugal) apontara a sua «alta personalidade» como poeta lírico contra a «incorporação total a um ou outro sector, embora de todos recebendo sugestões e a todos servindo um momento: o velho parnasianismo, o novo simbolismo, o imediato nacionalismo e o mais recente modernismo».

Por «nacionalismo» entendamos o culto da Nação portuguesa como ordem de valores, costumes e tradições dela só. As citações supra mais não revelam senão os eufemismos a que a censura republicana, ou as convicções pessoais dos autores mencionados, obrigavam a disfarçar o monarquismo de Afonso Lopes Vieira. Um homem a quem a vil condição da República repugnava.

O curioso estudo de Cristina Nobre (Affonso Lopes Vieira na correspondência da época), de 2011, vem, mais descontraidamente confirmar esta acepção da sua índole política. O trabalho principia pela recolha das suas caricaturas à época, todas destacando um certo elitismo intelectual, a pose d’un seigneur, afinal o desdém pela mediocracia predominante. É, de Afonso Lopes Vieira não há registos de genealogias antigas, apenas o seu prazer pela arte, o seu desprazer pela burocracia e pela estupidez que o cercavam. Já antes, em 1921 fora preso, e o seu trabalho Ao Soldado Desconhecido (morto em França) – na I Grande Guerra – toldado de divulgação pública.

Revoltava-o a hipocrisia do Estado. E, aquando das cerimónias oficiais concernentes aos mártires do conflito, escreveu - «Não creio que houvesse em todo o Portugal alguém que pudesse dormir um sono descansado depois de saber que esses mártires da República, que são também os da Pátria – porque pela Pátria se sacrificaram esquecendo o interesse político que os mandava para o sacrifício – vão ser agora os mendigos da nossa estrada ou os famintos das nossas ruas». E acrescentava, fosse crime o que afirmava, com o maior gosto partilharia os calabouços com as demais vítimas do infortúnio, apesar de tudo, gente melhor do que os obreiros da «agonia da Nação». Começava aqui a sua aproximação ao Integralismo Lusitano.

Recusou mesmo condecorações com que a República mais tarde o quis contemplar. Deu-se mal com a II República que o perseguiu. E continuou sempre versejando. Em 1940 deu à estampa o livro Onde a terra se acaba e o mar começa (dedicado «à memória do [seu] grande amigo Vicente Arnoso» – Vicente Miguel de Paula Pinheiro de Melo, o 3º Conde de Arnoso), no qual se inscreve o poema Pinhal do Rei,e enaltece

 

A Rainha Santa Isabel

No areal bravo de Moel meteu a mão no regaço,

Deitou sementes ao espaço

 

- Ó Pinhal do Rei, do Rei meu marido,

Andará nos mares teu corpo florido!

 

A Rainha Santa Isabel

No areal bravo de Moel

Tirou do regaço divino

As sementes de verde pino

 

- Ó Pinhal de Rei, do Rei meu Senhor,

é Deus quem te sagra por navegador!

 

Meteu a mão no regaço, deitou sementes ao espaço

No areal bravo de Moel

A Rainha Santa Isabel

 

Ó Pinhal do rei, do Rei meu marido,

Dará volta ao mundo teu corpo florido!

 

Tirou do regaço divino

as sementes do verde pino

no areal bravo de Moel

a Rainha Santa Isabel.

 

Ó Pinhal do Rei, do rei meu senhor,

tu serás nos mares o Navegador!

 

Ficamos esclarecidos. Mesmo volvendo à eventual inicial contemplação do Poeta com a República. Os efeitos nefastos do afonsismo e do bernardinismo ditaram o monárquico Lopes Vieira.  Doravante a sua vida, a sua musa, seria Portugal. Por isso, entre outros, o poema Nazaré, que me é especialmente caro (no livro acima mencionado, do meu Avô materno Custódio Nazareth, integralisa de gema, sendo a sua - nossa - gente originária desta terra):

 

O búzio de burel,

rugoso e tão trigueiro

como um avô marinheiro

 

do painel!

 

Nossa-Senhora do Mar

vem, vestida de peixeira,

encostar-se à tua ombreira

- e chorar!...

 

Esvanecera-se a indiferença do Poeta perante a novidade da República. Também o Estado Novo salazarista haveria de implicar com o seu apego à terra portuguesa e aos portugueses. Hoje, pouco se fala deste grande vate, mais um que se arreigou ao Ideal Monárquico.

 

(In Real Gazeta do Alto Minho, nº 17)