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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Memórias vilacondenses (concl.)

João-Afonso Machado, 18.08.18

HOTEL VILA DO CONDE.jpeg

Ólho em frente e não vejo o Carocha do meu Pai. Nem o grande Mercedes do Tio José Júlio. Nem o BMW ou o Imp dos Braga da Costa, o Peugeot 204 dos Pessoa Monteiro, o Volvo Pinto de Lima, o Renault 16 dos Lencastre. Nada vejo - a Bento de Freitas está vazia, repleta de carros estacionados sem história nem sentido.

Também já não lembro os vagares matinais daquelas bandas. Aonde as criadas saindo para as compras? As bicicletas mais espertinas? E as peixeiras, a Júlia e a Olivía? Com a Avó para sempre à espera delas, sentada no canapé da entrada,- Então o que traz você hoje? - Veja a senhora, minha Senhora, veja com os seus ricos olhinhos!

(Lá estava o capatão, o goraz, o robalão. E a ciência da Avó para avaliar as qualidades e os preços, aposto não havia na Praia quem a igualasse: em nossa casa, o negócio do peixe era directamente com a Avó, sem quaisquer intermediários.)

Agora tudo debandou.

O Sr. Mário morreu. A Sra. Ana também. O Bom Doce fechou. O Hotel é um ruína escandalosa. Deixou-nos ainda o Sr. Andrade, republicano e socialista, barbeiro até aos 80 anos, já a tremelicar, a quem eu confiava a minha jugular e lhe pedia me aparasse a barba. No baldio onde as gatas criavam as suas ninhadas, nasceram prédios, sombras e claustrofobias.

A GNR fechou o posto, deixando-nos indefesos perante a peonagem que tomou os passeios e repele as bicicletas neles. Na esquina da Estêvão Soares ainda se brada - Arraial, arraial! Sus! Sus! - ao jeito do heróico do alcaide de Faria. Ou da Feira... Santa Maria!, quão inúteis esforços.

Já não ouvimos o mar, afogado no ruído do trânsito. O próprio areal está de malas aviadas. Acabou o nevoeiro e a ronca da Póvoa, sempre ampliada por aquele ar denso e cinzento.

Nada! Vila do Conde caiu sobre o peso da usurpação.

Será agora, quando muito, uma reminiscência, um culto, até um rito, secreto, iniciático e exotérico. Mas onde descobrir uma salinha livre para o praticar?

Te Deum laudamus.

Finis.