"As «máquinas infernais»"

Vão lá muitos anos, a malta do INA fugiu às aulas e veio a Famalicão assistir à passagem dos craques do Rali Vinho do Porto. Tenho bem presente o episódio. Parte de nós posicionou-se em Moço Morto, porque os concorrentes seguiam na direcção de Guimarães, e foi aí – relevo o momento – a última vez que vi em vida e conversei com o saudoso Director do Ninho, o colégio da minha Primária, o Dr. Mário Victor de Oliveira. Um amante e praticante do desporto automóvel, enquanto a saúde lhe permitiu, sempre “brincando” com o seu Morris 850 azul-bebé e depois com o NSU laranja.
Nesse 1977 (o seu último ano cá) falámos de trivialidades, do seu mal-estar, de coisas que me ficam na memória ditas por aquele Amigo já tão debilitado.
Era o tempo de “volantes” célebres como Walter Rohrl, Markku Alen, Henri Toivonen ou Hannu Mikkola. Ele, o Dr. Mário Victor, coitado, assistia á passagem sentado no seu Citroen GS.
Foi nessa altura, entre tantos dizeres sábios da rapaziada, em ouvi da boca de um figurão, colega de Santo Tirso, a expressão - «máquina infernal». Quando um desses Fiat, Talbot, Escort ou Mercedes – já não sei precisar – troava na sua rota. E, de imediato, as dúvidas existenciais atropelaram-me no caminho da minha vida.
Pensei cá comigo - «infernal», vinda dos infernos. Logo castigadora, má, imprestável para a prestabilidade. Mas ali não cheirava a sulfuratos, nem ardia o calor do pecado. Seria porque nos baldámos às aulas? Não, nem assim. O Colégio nos ensinou depois isso. Entenderia, - «infernal» porque infalível. O contrário da Teologia.
Poderia ser só um dito tirsense, sempre “malaico” (no dialecto deles), assinalando um caminho íngreme para as trevas do resultado final da competição. Um resultado inexcedível.
O termo pegou. A velocidade automóvel em competição ficou pejada de «máquinas infernais» Seriam essas que, ainda agora, participam no Rali de V. N. de Famalicão.
Uma prova que aspira a um lugar no Campeonato Regional do Norte de Ralis. Decorreu recentemente e assisti à classificativa entre Mouquim e Jesufrei. Junto a uma bonita curva, onde tirei belos retratos e apanhei um susto quando um Clio começou a fugir de traseira e bem me podia ter apanhado. Aliás, não presenciei, mas soube de uns tantos despistes.
Foi um dia de secar o leite às vacas, caso as houvesse ainda. De muito ruído, de motores a falharem aos estalos, intestinalmente incorrectos, subidas fora pedindo a ajuda das caixas de velocidades. Para manterem o ritmo. Com algumas máquinas de antanho persistindo num “sim!” histórico, português.
Recolhido ao sossego do campesinato, ainda assim bato palmas a este evento. Que me faz lembrar outros de antigamente, sob o terreiro da minha Família, loucura absoluta, porque Famalicão gosta de automóveis e corridas, eu também, e quem sabe conduzir desta maneira é mestre, logo tem de ensinar.
(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 26.JUL.2018)