Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A florzinha do MI5

João-Afonso Machado, 25.07.18

IMG_2911.JPG

A multidão era a perder de vista, comemorava-se o centenário da Royal Air Force, e a Grã-Bretanha, como toda a gente sabe, tem-se visto aflita com o terrorismo. O policiamento estava severíssimo, profissionalíssimo.

Britânicos (cada um com a sua Union Jack) e turistas, aos milhares e milhares. Comprimidos contra as grades, enquanto não os sobrevoavam as venerandas esquadrilhas. Os guardas, impávidos, também aguardavam.

Nesse interim, a máquina fotográfica entrou em missão. Entretendo-se. Mas ao terceiro retrato de um polícia carrancudo, nem aqueles chapéus impares lhe valeram: enfastiou-se.

Foi então que a viu. Sobre o baixinho mas muito bem proporcionada. (Devia ser uma sumidade em artes marciais.) Trazia na mão uma granada, destas mais modernas, mesmo parecidas com uma garrafa de água. O restante armamento com certeza o esconderia no seio, seguro pelo colete anti-balas.

Aquela fotografia seria a flor rara da sua colecção!

Mas a agente, movida por um sexto sentido qualquer, de cada vez que a máquina lhe era apontada, resguardava as faces, cabriolava, como se em seu redor fosse já só fumo e estilhaços, o holocausto.

Era uma agente secreta, um elemento do insondável MI5!... Treinada para tudo - tão secreta que se disfarçara de uma vulgar passa-multas. E nisto - nessa vigilância quase cândida e nessa aparente timidez - se andou a manhã inteira.

Chegou, enfim, a hora de desmobilizar as hostes. Numa derradeira tentativa, a máquina focou-a. Uma máquina portuguesa, inofensiva, sofredora, só não cantando o fado por carência de voz. Campesina, bucólica, muito parola...

Então a agente especial condescendeu. Um olhar, um sorriso (esplendoroso) a aproveitar a distracção do chefe. Sempre com a granada na mão e a mão na cavilha. Mas linda, linda (perita em artes marciais), tão simpática e acolhedora, exclusiva para a pobre máquina portuguesa.