"A limpeza da poça das rãs"

Quando os verões se portavam naturalmente, a rega das culturas nos campos e hortas tornava-se uma questão premente, regrada por rigidíssimos costumes. A água do ribeiro era pouca mas era a dividir por todos, conforme usos ancestrais praticados por gerações e gerações consecutivas. E as poças eram os reservatórios dessa água escassa e milagrosa. Urgia, pois, tratar delas, quero dizer, limpá-las, expurgá-las de tantas plantas aquáticas que as transformavam numa reduzida superfície alagadíssima, pantanosa, pouco recomendável aos distraídos.
De todas, a poça das rãs seria a maior. E, uma vez por ano, os interessados (ou os seus assalariados) reuniam-se, arregaçavam as calças até aos joelhos, descalçavam-se e metiam-se ao lodo. Com engaços, enxadas e forquilhas. A libertar as águas daquela floresta rasteira onde os batráquios eram ruidosos e aos milhares; para lhes abrir caminho através dos regos que serviam as quintas vizinhas. A limpeza da poça das rãs era, para a miudagem, uma manhã de festa.
As mãos firmes nas enxadas arrancavam os tufos de ervas com as respectivas raízes; os engaços ajuntavam-nos; e as forquilhas lançavam-nos às garfadas para o carreiro que ladeava a poça. Sobrevinha um cheiro a lama, a águas estagnadas e castanhas de tão revolvidas. Uma papa a querer escorrer para a origem. E rãs e mais rãs e mais rãs – centenas delas, vindas nesses arremessos das forquilhas – aos saltos com molas, dirigidos ao seu elemento natural. Já por aqui se percebe o nome da poça… A brincadeira consistia, então, em apanhá-las, nesse tremendo exercício de destreza.
Mas não só. Havia ainda a caça grossa, encargo que recaía sobre aqueles valentes que se lançavam às profundezas da poça de pés descalços. Invariavelmente, em cada caçada, – isto é, em cada limpeza – uma cobra velha, dessas compridas e coleantes, autênticas jiboias; e uma enguia – um eirogo – como o braço de um homem de tamanho, que por ali pararia para a engorda com a bicheza menor. Era uma tradição que não me ocorre alguma vez fosse quebrada, a da cobra e do eirogo. Logo mortos à sacholada, ela atirada à nossa observação atenta, num canto qualquer onde em breve zuniam as moscas; ele levado à cozinha e despojado da pele, pendurado num ganho do tecto, como um troféu orgulhoso, - um apetecido petisco.
Porque assim rematava a manhã: com o almoço na cozinha da lavoura da minha Família. Precedido do indispensável lava-pés no tanque do quintal e do retorno aos socos de madeira, que estávamos ainda no tempo deles. Não no actual, em que os motores de rega extraem a água do ribeiro e os aspersores lançam-na sobre o milho. A poça das rãs é agora delas apenas. E das cobras e talvez mesmo dos eirogos; e, nos invernos, de uma garça que poisa ali e se sacia à vontade.
Há quatro décadas não faltavam voluntários para tratar dela. E saborear uma malga de caldo, umas tantas de vinho tinto, mais a travessa toda do presigo.
(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 12.JUL.2018)