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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

No tempo e no lugar das cerejas

João-Afonso Machado, 04.06.18

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Gosto de cerejas. Não há fruta melhor: não precisa ser descascada, come-se um uma vez só e é doce, nunca menos do que doce. Tem um caroço, sempre o melhor treino para acertar no alvo. No parceiro em frente, enfim... Até as dizem, às vezes, no topo de um bolo, como uma rainha. As cerejas não pesam cá dentro e colhem-se das cerejeiras tão bem quanto as azeitonas das oliveiras. Aquelas competindo com os melros, estas com os tordos. Somos nós e o mundo, num caso e noutro. Seja como for, a compará-las inevitavelmente com as laranjas, de casca que fica nas unhas, e um dejecto perigoso, que atingindo os olhos pode cegar.

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Em Resende, o regime político é usualmente de liberdade. Basta parar no berma da estrada e atacar com o saco de plástico. A cereja é tanta que dá para os libertários - esses , os "caçadores" do regime livre - e para os alinhados também. Por muito pouco se trazem, aos quilos delas, - os mais moderados - no mercado, madurinhas, bem escolhidas. Depois, é o grande mote da festa local.

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Cada freguesia do concelho apresenta o seu carro alegórico glosando-o, ilustradamente, com o auxílio do gado. Manda a gratidão assistamos. Não é um espectáculo avassalador. É a festa daquela gente simples e distante. Só não percebi os varapaus dos condutores: as vacas são mais mansas do que gatos. Entendem a nossa fala. Se o se tratar de folcore, tudo bem. De outro modo, um segredo nos ouvidos delas - vacas - seria o bastante para parar o andor, quando fosse preciso. Eu desejo ao gado de Resende as melhores cerejas da colheita. Assim ele voasse ao cume das cerejeiras como os melros...

 

 

 

O tuc-tuc patriota

João-Afonso Machado, 02.06.18

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Lembrara-se daquele triciclo motorizado que o pai utilizava no transporte de bilhas de gás e foi uma start-up, talvez a primeira lá da terra. O Celestino, sempre mágico, e umas horas de chaparia e solda, mais uns retoques na pintura e nas coberturas, fizeram o resto. Viveu a vizinhança, então, uma sensação ímpar - nascera o primeiro tuc-tuc ao norte do Douro!!!

Cheio de fé em tão afinadinho motor, pôs-se à coca na estação dos comboios, onde sempre desembarcavam um ou outro turista sem destino e, por isso, sem horizonte para taxistas.

Ainda assim, à cautela, trazia consigo o penico. Daqueles com abas em couro das orelhas para baixo. À moda do grande Giacomo Agostini, obviamente sem a bandeira italiana pintada. Não, a sua peniqueira dividia-se em duas metades, uma vermelha e a outra verde, com algo amarelo no cimo, assim a modos de uma omolete. Isto porque o dono do quiosque da central de camionagem, volta e meia, ligava-lhe para o telelé, a avisar - acabavam de sair do autocarro uns estrangeiros de mochilas às costas, olhar perdido. E ele, empenicado, arrancava desabridamente, atravessava a vila, a curvar com o joelho de fora (como na televisão e o grande Agostini), antes que eles tomassem o rumo do Alto Minho ou do Litoral, outras paragens deslealmente concorrentes.

Depois, já com os turistas no papo, levava-os a visitar a terra: a câmara municipal, a igreja matriz, o jardim público e aquele conselheiro que empedernira de braço estendido e a boca aberta. Os seus acompanhantes bem lhe perguntavam

- Who's that?

mas ele, com a vaga noção do tom interrogativo da expressão, declamava sobre a edilidade, as flores dos canteiros, o génio percursor do Conselheiro Fernandes. Na lingua pátria, evidentemente, aquela que lhe fora dispensada quando se afoitou lá, nas paragens deles.

E, na primeira oportunidade, enfiava-os no tuc-tuc e marchava para as freguesias rurais mais próximas.

Conhecia de cor as exclamações:

- So many cows!

- Beautiful fields!

- That´s all corn!

e respondia alto, para si,

- Pois é, filha, e ainda não viste nada...

num contínuo levantar de poeira a impedi-los de replicar. De regresso à vila, enfiava-os na tasca do Benvindo, no Bairro do Cardeal Cerejeira, a calá-los com carapau de escabeche, moelas e salpicão, tudo ensopado em tinto de Amarante. Recebia do Benvindo a comissão respectiva. Depois, era o cuidado de os levar a bom porto,

- Ela já se me atirava ao pescoço...

quer dizer, à pensão onde nova comissão o aguardava. Pelo meio, o doce sabor da vingança do jugo saxónico - pelo Ultimato e, sobretudo, por aquele passeio a Londres, onde mais não pudera senão alimentar-se na Pizza Hut. Não!, cem vezes cem comeria do bom e do melhor à custa dessa tarifa especial-bifes.

 

 

 

Não, não publico.

João-Afonso Machado, 01.06.18

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Quando esses meus amigos tiveram de abandonar a sua casa de toda a vida, por motivos nojentos, eu pensei coisas imensas. À cabeça, a saúde de um nonagenário e da sua Mulher, poucos anos mais nova.

Depois lembrei-me de que tudo se traduzia num presente envenenado. A usurpação não tinha por que se regozijar. Quase falida, iria "herdar" custos de manutenção para os quais não era, nem será, capaz.

Finalmente, pensei: os meus amigos de sempre saíram de cabeça erguida. O mundo está com eles. Haverá um outro mundo - demonstra-se - suficientemente estúpido. Destrutivo. Finda a fase judicial (onde fui apenas testemunha), procede-se apenas à contagem dos depoimentos. Uma porcaria que vai de juiz sim, juiz não.

(O meu saudoso Pai dava porrada neste abominável abuso como gente grande. E Ele era quem era).

Rachei a meio as minhas relações. Só sobrou a parte sã, quero dizer, a que jamais deixou o meu Pai, a minha gente, eu próprio. Tudo isto só faz sentido a quem entender a merda chamada dinheiro. E faz a honra de ser honrado pela honra de não ser desonrado.

O mais, não é publicável; ser fidalgo é.... genético.

 

 

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