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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Outra custosa partida"

João-Afonso Machado, 15.06.17

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Quando soube da doença, e agora da morte, do Joaquim Cunha fiquei impressionado, incomodadíssimo. Estudámos juntos há muitos anos. Reencontrámo-nos nas excursões aqui pelo Norte, organizadas pelo amigo comum Alcino Monteiro. Confesso, já não me lembrava do Cunha, não fosse ele dirigir-se-me e recordar esses tempos recuados em S. Tiago da Cruz. Eramos duas figuras completamente diferentes, quatro décadas volvidas.

Por tudo, as imprescindíveis e primordiais palavras para o Joaquim Cunha – que descanse para sempre na paz de Deus! – e para a sua Família, a quem só posso agora endereçar o meu sentido pesar.

Mas depois vim sabendo mais registos da sua vida. O Cunha trabalhara anos a fio na Pichelaria Mouzinho, até se estabelecer por conta própria. Era concunhado de um rapaz, meu companheiro de brincadeiras e de caça, um antigo trabalhador do meu Pai. Também ele consumido pela terrível doença… E montara, enfim, o seu próprio negócio de pichelaria em S. Tiago de Antas.

Ainda antes de alcançar a dignidade de sexagenário, o Joaquim Cunha sucumbia a um cancro que lhe foi diagnosticado um mês antes de morrer! Deixou viúva, deixou filhos e deixou a sua obra. A sua pichelaria, fruto apenas da sua valia, do que sobretudo há de transmitir aos seus descendentes: a honradez do seu trabalho.

A vida é feita de tais injustiças, é o que todos sentimos. Uma vez mais, começando do quase nada, batalhando, fazendo render os talentos todos da parábola evangélica, já a aproximar-se a idade do, aliás, merecido sossego – a invejável idade de olhar para trás e sorrir ante o que ainda temos pela frente – já quase, dizia, a chegar à fronteira do ansiado repouso, eis a maleita, a incapacidade da ciência médica, o veredicto fatal. Se tudo se passar umas tantas portas adiante da nossa, nós mesmos, mais ou menos resignadamente, suspiramos, questionamos o Destino e, não raro, amanhã acordamos aptos a ferrar uma punhalada em alguém. Até um dia…

Aprendi muito cedo, falta-me a vocação para pregador. Também não precisei muitos anos para perceber, somos estruturalmente egoístas. São estas as razões pelas quais fui entendendo duas noções fundamentais – e paradoxais!

Qual seja a primeira – os únicos grandes e graves problemas são os próprios, os nossos, de cada um. E a segunda – o que quer que esperemos receber dos outros terá sempre o quantum que lhes soubermos dar. Cristo disse o contrário? Pois o Homem desdisse Cristo, então.

Portanto, Amigo Cunha, portanto sua dorida Família, a minha homenagem, a minha presença, o meu abraço. E a minha consideração – a consideração devida a quem deixou uma obra, neste caso manual (poderia ser intelectual), e foi além do simples mastigar o dia-a-dia. Mesmo para quem não crê no além-vida terrena, será, ao menos, isso que fica. Dá-se o caso eu acreditar – ao Joaquim Cunha espera-o muito mais, espera-o a Eternidade e o Paraíso.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 15.JUN.2017)