Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Memórias vilacondenses (XXV)

João-Afonso Machado, 03.06.17

RIO AVE.JPG

Nesse tempo o açude era diferente, media a maré: desaparecia de vista quando ela enchia; e oferecia um excelente palco para lançamentos para o meio do Ave onde babujavam taínhas então muito comestíveis. Mas tudo isto na direcção da foz do rio. A montante do açude o mistério principiava ali mesmo, a pesca requeria uma licença comprada na Estação Aquícola, o peixe era outro, a água doce, o silêncio total. Vila do Conde ficava esquecida. E o mundo para aquelas bandas permanecia desconhecido. Era Verão e a vida de praia tinha fronteiras rigorosas.

Somente às vezes nos cruzávamos com o Ave, em algum passeio até Santo Tirso ou Guimarães, ou então na Trofa, a caminho do Porto. E, invariavelmente, debaixo das pontes, a longa cana de um pescador, a limpidez do caudal, sempre os açudes, as azenhas.

Com os anos, toda essa pacatez começou a avermelhar, a acastanhar, a azular, até enegrecer absoluta e irremediavelmente. É o Ave de agora, sem outro peixe no seu troço final senão umas enguias e umas taínhas porcalhonas.

De maneira que todos acabámos nos afastando desse Ave festivaleiro ou lutuoso. Esquecêmo-lo como quem foge de uma fossa fedorenta. Até que o encontrei o outro dia, perto do seu berço, na serra da Cabreira.

Vinha a pinchar nos penedos sob uma velha ponte. Já não usava fraldas, trazia as margens limpinhas e um casal holandês repimpado nelas, ao sol, feliz, a vê-lo passar.

Desci e dei-lhe os parabéns. Cheirava a trutas. E trouxe uma fotografia dele criancinha, para os vilacondenses o verem muito, muito longe do açude, lavadinho como já ninguém recorda.