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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Carrazeda de Montenegro

João-Afonso Machado, 07.05.17

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Foi sede de concelho lá no alto, de onde a igreja, que ainda é Matriz, emerge no céu muitas voltas antes de chegarmos perto.

Hoje é vila, um consolo que lhe deram, mas sequer é já freguesia... E vem descendo para o vale, deixando atrás de si a ruína.

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Letras que lhe caiem dos antigos azulejos toponímicos, como dentes podres. Cafés, petisqueiras, casas venerandas, pedra nobre, centros paroquiais, lojas ou varandins, em tudo as vidraças se quebram no abandono em redor da imponência setecentista da Matriz. Percebe-se porquê.

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As gentes gostam da propriedade horizontal. Enquanto tantos suspiram por um quintalzinho, ao menos... Mas não, Carrazeda de Montenegro moderniza-se...

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Resistem, contudo, alguns pormenores simpáticos. Outras arquitecturas também já respeitáveis. E, se calhar, a tradição dos vinte e cinco tostões de gorjeta ao gasolineiro. 

 

 

"Com obra grande deixada"

João-Afonso Machado, 04.05.17

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A vida vive-se também nos dias tristes das despedidas. Há esse curioso costume de plantar nas paredes ou nas janelas mortas notícias ilustradas da falta de alguém. Para cada um, em geral, é isso mesmo – a simples notícia, a fotografia de um nosso próximo, o doloroso conhecimento de outra partida. Esta última semana, não sei quantas esquinas confirmaram-me – é tal qual.

Não venho semear palavras e colher memórias. O recato é, por vezes, a nossa melhor companhia. Mas gosto de falar de coragem, resignação, esperança. De coisas que a gente vai aprendendo com os outros. Porque a fatalidade gira como uma roleta – há de calhar na casa de cada um de nós, chegando a sua vez.

Que mais dizer? Teorizar sobre a surpresa? Para quê? Quem não a conhece?

Alguém, perto de mim, sofreu em cheio o embate de uma má nova: uma doença incurável, pese embora toda a combatividade, a derradeira amarra dos sempre gloriosos inconformados. Falo, portanto, de uma luta tesa contra o destino. Contra os ditames da tal doença.

E, como eu, muitos que a acompanharam. Tantos quantos viveram a expectativa de dias melhores, ansiaram a sua recuperação até ao limite do possível. Como disse, família e amigos.

Famalicão pertence ainda ao privilegiado universo de terras em que não passam despercebidos os dramas de cada um dos seus. As novidades são partilhadas, boas ou más, é o contrário do mundo anónimo onde as pessoas ficam entregues a si próprias. E o tempo vai passando e deixando marcas de dor…

Ocasionalmente, a deixar para trás, esquecidos, os piores pedaços de vida. Com regularidade, entristecidamente, confrontando-se com o fúnebre desfecho – a partida dos entes queridos. E queridos para os familiares próximos, quase tanto como para aqueles que beneficiaram dos serviços prestados à comunidade por quem foi.

Não alcanço meios de prosseguir sem vir um pouco ao concreto: assisti à gratidão de gente e mais gente face a uma educadora de infância – de tantas gerações de miudagem! – levada prematuramente por uma doença incompreensível e injusta. Depois de quase dois anos de luta tranquila e conformada, mas pertinaz, contra esse mal.

Para mim foi uma lição. Há mais de 50 anos deixei a “pré-primária” do Ensino. Mas aconteceu como se estivesse lá, sentado de pernas traçadas e a bata regimental, ouvindo a “história da carochinha” e fazendo toda a sorte das mais infantis perguntas. Terei aprendido o que jamais conseguirei praticar?

Se conto um episódio imaginado? - Não! – Se é necessário ser mais claro e colocar aqui as letras do nome de alguma fada? – Também não! – Ela não quereria e os famalicenses não precisam. Qualquer outra explicação mais cairia na redundância. As horas continuam a tocar nos usuais relógios da Vila. Será meio-dia e a rapariguinha saltita alegremente Rua de Santo António fora, vai fazer algum recado ao Pai. E de tarde, até tarde, as aulas… O Tempo emudeceu. Chora de saudade por toda a alegria que transbordava dos corredores do liceu, dos campos de jogos no recreio. Há depois uma lacuna, as três décadas da minha ausência. Muitos foram reconstituindo esses passos por mim ignorados. E é uma história de luta, tenacidade, um orgulho calado mas sem hesitações, e uma cara sempre levantada. Penso de mim mesmo: quantas vezes, e de que quão irrecuperáveis meios, enveredamos por rumos contrários aos das grandes oportunidades! Porque fui eu embora?

Apenas uma certeza a finalizar – o seu descanso na Paz do Senhor.  

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 04.MAI.2107)

 

 

Sinais de bordo

João-Afonso Machado, 02.05.17

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São os fins de tarde sem fim. Como se o Tempo parasse em cima das águas e a História flutuasse a pedir um pouco de lustro. Um certo polimento, tinta nova no tinteiro onde encaixam quatro mastros, quatro penas antigas e viajadas, muito narradoras do ultramar.

O veleiro não estava lá por acaso em tal fim de tarde. Falho de tudo, sem voz para pedir esmola, nem olhar por onde alcançasse o horizonte. Mas estava. E continuará a estar, na sua fé no futuro. Outros dias virão terminantemente espezinhando esse fúnebre, insuportável, - "nunca mais".

 

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