Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Interrogações arquitecturais

João-Afonso Machado, 21.03.17

DO BRASIL.JPG

Lavou-se-me a memória dessa partida um dia em navio à sorte no vento, e o cais sem um adeus sequer. Nunca cheguei a perceber se morrera já no passar a barra, talvez tenha ressuscitado ao avistar o Brasil, talvez alguém me cedesse - não me lembro, tinha doze anos... - outro coração, este carregado de calos aptos a serem delapidados sob os calores ultramarinos. E foram. Depois o tempo largou à desfilada, sem rancores nem saudade, mal se detendo no balcão onde eu e ele levámos as primeiras chibatadas.

Regressei no galope de muitas cores e muito ouro, o ouro bastante para erguer bem alto toda a toléria que me apontaram, sempre generosamente comentada. E a minha mulatinha também, de resto mil vezes mais galante do que as afilhadas do Senhor Abade, emérito pecador cobiçoso.

Roubou-ma o clima ao fim de dois invernos e uma pneumonia. Nunca mais fui eu. Para quê aquelas paredes e aqueles telhados, os mais altos da minha terra natal? E o cucuruto para caçar as estrelas do céu, as varandas onde as tardes todas espreitávamos o passado e ouvíamos o sabiá? Para quê o meu paletó, o chapéu de abas (uma cisma minha das coisas ricas de Paris...), o laço garrido ao pescoço, a bengala encastoada nas formas de Vénus, para quê tudo isso nestes dias frios a que cheguei quando os do meu sangue já tinham definitivamente partido?

E a minha mulatinha levada para junto deles, o coro maldoso da freguesia inteira...

Só por isso morri. Sem o cuidado de ao menos deixar nome. Apenas com a vaga noção do meu intermitente despertar. Como se à minha mulatinha pudesse ocorrer ideia igual e voltássemos às tardes na varanda, ao pirolito a chamar o sol quente e o canto do sabiá.

Cadê a minha fortuna? Onde a sepultaram, tão longe de mim e dos meus sempre ocultos negócios, alma esta de perpétuo desassossego, em nós, brasileiros, quantos mais fantasmas há do que nos ensanguentados castelos das guerras de antigamente?!