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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Antigamente, sempre uma vaga de frio"

João-Afonso Machado, 26.01.17

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Quando o Liceu, aí por 1975, revolucionou – como estava então na moda… - os horários das aulas e determinou o seu início às oito e meia matinais, ensinou-me sobretudo o que era o frio. Um frio a sério, escorregadio do gelo e branco da geada que se perpetuava nos lugares sombrios até à madrugada seguinte; e das dores com que me castigava os pés, trespassando facilmente as botas e as peúgas, ou adormentava as mãos, incapazes de segurarem uma chávena, uma esferográfica, de voltarem a página do caderno.

O meu despertar era, por isso, solitário e enregelado. Num movimento titânico, quase instantâneo, em que despia o pijama e me entrapava com os condimentos todos, incluindo o cachecol e as luvas, debaixo de um casaco à época na moda, de gosto mais do que duvidoso, excessivo na sua gola de tecido sintético a imitar pele, dizíamos nós, de pele de um jac…, um bicho não nomeável aqui, aparentado com os jacarés. O passo seguinte era o pequeno-almoço – uma pratada de papas Nestum (as melhores eram as de mel ou de arroz), feitas na hora em leite frio, e um pão com manteiga ou, quando o rei fazia anos, o croissant preservado num tupperware. Muita substância acalentando uma manhã que se prolongaria até tarde…

E finalmente o contacto com o frio da escuridão. Tacteando para não cair nele, ainda mais refinado junto ao solo. Que o dissessem os pés… Por ali fora, rumo à caminheta e às aulas.

A caminheta é, justamente, a grande perda nacional. Desde logo porque já não passa naquelas bandas; depois porque, mesmo que passasse, se chamaria autocarro. Uma vulgaridade qualquer!

Não, até nesse tempo a caminheta era obsoleta. Numerada, cabia-lhe o “1” da frota do Abílio da Costa Moreira, por ser a mais antiga, logo a mais vocacionada para aqueles caminhos de cabras. Talvez ainda se lembrem dela: do seu longo, afocinhado, capot, do seu corpo curto, à medida do caudal de passageiros, que se contavam pelos dedos das mãos. Os assentos eram em verga e o cobrador desnecessário. Até à Vila o bilhete custava 25 tostões, mas se eu marchasse (acelerado, para aquecer) até Tarrio e a apanhasse lá, seriam já só 15, pouparia um quinto de um maço de cigarros. Devido ao horário altamente flutuante, subsistia sempre o risco da caminheta me apanhar durante essa travessia. Não que o motorista não parasse a um sinal meu; já não recordo é a fronteira a partir da qual os 25 passavam a 15 tostões – creio que também ela dependia muito dos dias…

Todavia, normalmente manietado pela preguiça, fazia o meu trajecto até casa da Idalina, logo ali, onde a vida nascia mais cedo e, no fora e dentro das lides com o gado, a lareira ardia já. Ao longe, avistável da porta da cozinha, o traçado do caminho municipal (ainda um profundo desconhecedor do alcatrão), Mouquim adiante até Lemenhe.

Assim, com os olhos nele e as mãos em cima do fogo, me prevenia da passagem da caminheta para cima, para a Costa, destinada à Senhora do Carmo. Não porque a visse, antes por lhe detectar os seus inusitados faróis acesos bruxuleando vagarosamente, ao ritmo das covas naquela rota de almocreves. Depois, lição da experiência, era dar-lhe um quarto de hora e começar a descer para a paragem na Castanheira. Acaso ocorresse algum cataclismo, alguma erupção vulcânica, e a caminheta se adiantasse – denunciando-se sempre pelos faróis lá em cima, junto à fundição, pois que remédio!, - senão uma corridinha na escuridão. Pequeno seria sempre o tombo, quando comparado com o abalo telúrico causador de tal descompasso.

Ainda tentei repescar o nome do motorista, sempre o mesmo, recatado, paciente (a porta da caminheta era perra, à vezes o trinco custava abrir…), de poucas palavras. Mas não consegui, a memória escondeu-o. Ficou somente a sonoridade das molas da caminheta naquele piso escalavrado, a sua marcha lenta. Três ou quatro caras, sempre as mesmas, da Senhora do Carmo até à Vila. Os cromados gelados por toda a parte onde puséssemos as mãos, o desconforto dos assentos…

Depois a vida guinou para outras bandas, ainda dei com a “1” do Abílio, já em adiantado estado de decomposição, nas suas oficinas à Avenida agora 25 de Abril: espreitava-a, cheio de nostalgia, do muro para baixo, onde ela jazia, e tornava lá, a verter uma lágrima por essa saudosa companhia dos meus 15 anos.

Longe vai o tempo. O que me causa uma espantosa impressão é o frio ser então  todos os dias dos invernos, mas não haver alertas “amarelos” e “laranjas”, nem brigadas espalhadas pelo País em socorro dos necessitados. Seria por inexistência de sem-abrigos ou, tão-só, por desconhecimento nosso de que se sofria e morria de hipotermia?

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 26.JAN.2017)