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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O alcaide e o filho, o tempo de Faria

João-Afonso Machado, 23.11.16

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É um quadro em calções, sentado numa secretária de pau, o tampo descendente com uma cavidade para os lápis. Está lá o alcaide de Faria e o seu nome, Nuno Gonçalves, ainda ecoa no entusiasmo erguido pela sua braveza. Está aos pés da muralha e cobre-o a sua cota de malha; apenas a veste com a cruz portuguesa denota rasgos, denuncia maus-tratos. Desgrenhado, heroico, contorce-se manietado pelos espanhóis, quatro ou cinco ou seis ou sete.

Apesar de tal incómodo, o diálogo com o filho, espreitando das ameias, é vivo, empolgado, dramático. Generoso, a dar o ser por El-Rei. Arde o cheiro das labaredas e da fumarada em redor. E de vozes derradeiras, contraditórias: - Ide! - Aguardai! - Sustei! - Erguei!... - Lutai! - Lutai! - A Pátria brada o seu desnorte conjugado no imperativo - talvez mais no implorativo... - de verbos belicistas e filiais.

A aula terminava sem uma ponta de misericórdia, como um simples lugar da História. Um episódio carregado de deveres cumpridos em que o sangue eram só palavras de circunstância. O gume das espadas inimigas esquecia o resto e apenas suscitava raiva - a nossa raiva, vestindo calções...

Agora, diante das ruinas do castelo, tento sentir Nuno Gonçalves pronto a morrer. Explicando ao filho o seu sacrifício; e este cumprindo a vontade do pai, a Pátria sublimando a angústia de ambos.

Impossível. O cerrado dos sobreiros, a dispersão das pedras, ou me insensibilizou ou será do seu musguento silêncio esta minha franca convicção de que ali residirá sempre uma lenda.