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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Curvando de memória em Outiz"

João-Afonso Machado, 17.11.16

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Aquele apeadeiro – ou melhor, o que resta dele – impressiona. Abandonado, destelhado, vivendo apenas da esperança numas paredes que possam ainda aguardar algum destino condigno, - o apeadeiro de Outiz conserva somente o cheiro queimado das velhas locomotivas a carvão da Linha da Póvoa; e o do inesquecível almoço em casa do Sr. Costa, num longínquo domingo de batida às raposas. Irão lá mais de 40 anos.

O Sr. Costa, que Deus tem, era caçador e fiscal do leite. Funcionário, se não me baralha o cronómetro, na Suil, a cooperativa de então, e visitador das explorações pecuárias dos cooperantes. Assim o conheci, eu rapazote dos meus 15, já armado de uma muito antiga cal. 16 de canos tronchados, com que incansavelmente perseguia os últimos coelhos bravos da freguesia. Sabendo disso, logo o Sr. Costa me envidou o amável convite para a dita batida, repasto incluído. A idade, a falta de documentos – deixasse esses pormenores por sua conta… Destarte, a manhã de caça foi vivida na maior emoção, a alma quase soçobrando ao peso de dezenas de raposas que, a todo o instante, podiam sair ao carreirinho onde fui posto, e afinal ninguém viu. Teria sido nos montes mais para as bandas de Cavalões? Já não me situo, confesso. Talvez à conta dos filetes e da salada russa, da vitela assada, logo após, à mesa do Sr. Costa, desses pitéus ainda a desculpar o fracasso da sequente tarde venatória.

Em suma, um domingo eterno, a hospitaleira vivenda nesse caminho de terra batida (hoje naturalmente alcatroado) umas centenas de metros além do apeadeiro de Outiz. Ao som do vetusto comboio da Linha da Póvoa, resfolegando, respirando em dificuldade, cambaleando defronte.

Rotas de antigamente. Perigosíssimas no Verão, tal a densidade dos garridos automóveis de matrícula francesa. Da ameaça terrível que representavam, bem patente nessas suas pinturas de guerra; do galope infrene de tantas dezenas de cavalos cavalgados à louca. E Vila do Conde, quando se lhe dava para não se mexer debaixo do nevoeiro cerrado, tornava-se depressiva, opressora. A suscitar sempre a mesma ideia alternativa: e se fossemos até Famalicão de bicicleta?

Por bicicleta entenda-se o quadruplo ou o quíntuplo do peso das actuais preciosidades ciclísticas. E a ausência de mudanças, a frequência de alguns males incorrigíveis como – no caso da minha – uma enorme folga num pedal, um persistente ruído a cada rotação e a inocultável sensação do falso em que o pé se precipitava. Tudo ao longo de 30 km, de porta a porta, com retorno programado para depois do almoço. Ora, trinta vezes dois igual a sessenta. Aos dezasseis. Nessa idade levezinha a que, se calhar, tanto devo a saúde que, graças a Deus, ainda vou mantendo.

Houve, pelo meio, algumas idas à valeta. Não por efeito de quedas, antes como derradeiro recurso de esquiva a essas danadas cavalgaduras pintalgadas no mais absoluto psicadelismo. Mas o horário era sempre escrupulosamente cumprido: uma hora para cá, três quartos para lá. E a diferença no relógio manifestava-se em Outiz. Precisamente a partir do apeadeiro.

Porquê? Porque ele marcava o início dos 5 km em caracol, sempre a subir até Brufe. (E o pedal a girar em notas desafinadas, uma a cada volta, o pé submergindo num vão, a músculo da perna cansado de tantas rasteiras…) Eram os fatais 5 km de Outiz e a obsessão de os levar de uma empreitada só, um ponto de honra em quantos comigo se tinham abalançado à estrada.

Quatro décadas depois, inquiro-me a quem terei emprestado essas pernas de 1976. Agora que elas tanta falta me fazem, com a rodovia livre dessas tribos belicistas em cavalgadas assassinas, Outiz tranquila, silenciosa, e um mar de recordações a embalar na descida para Vila do Conde, a descer embalando sempre, como que se espraiando, enfim, num sussurro de espuma aos pés do erodido apeadeiro. Desculpar-me-ão a delonga. Pior: esta evidência de um exórdio na velhice.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 17.NOV.2016)