Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Portas erodidas do impávido Tempo

João-Afonso Machado, 03.11.16

PORTA.JPG

O som cavo e húmido de mais uma entrada no Passado sob os arcos do granito. Um passeio a pé em tardes demoradas de sol. Isto no que toca a paisagem, ao recreio dos olhos não esmiuçando o interior do Tempo, sem ouvir o relinchar dos cavalos, a teimosia dos muares, e os rodados de madeira chapeada, talvez carregando cereal, talvez a caminho de algum cadafalso ao som das chufas dos burgueses. Há "depois" na vida, mas há também "antes", numa linha contínua caprichosamente intervalada de buracos escuros, ignotos, em que a única e inquestionável presença é a boa ou réproba pulsão do nosso sangue. Quantas vezes ele não calcorreou já aquelas lajes, montado ou apeado, digna ou indecorosamente?

 

 

"Despertar o Mercado"

João-Afonso Machado, 03.11.16

FRENTE MERCADO.JPG

Pouco antes da sua inauguração, há cerca de 60 anos, foram tiradas ao Mercado Municipal umas fotografias que às vezes circulam por aí, de paredes muito caiadas, branquinhas de ausência de uso, tudo quieto, pronto a ser estreado, nem um pardal se mexia na rua… Algo, mesmo então, dificilmente concebível porque a Vila tinha movimento, tinha vida, e os que se lembram dos bons tempos do Mercado sempre o ouvem gritando a plenos pulmões o seu quotidiano enredo mercantil.

Assentemos, antes de mais, em que o Mercado era um local e uma função imprescindíveis aos famalicenses. A sua animação era muito o vazio de alternativas de abastecimento na urbe, era a reunião magna dos talhos, das peixarias, das floristas, dos pomares, das hortaliceiras, de quanto mais se adquirisse nas corriqueiras idas “à praça”. Um conjunto fertilíssimo de víveres que a modernidade cortou às fatias e ao quilo, pré-empacotou e expôs nas montras dos supermercados. Pior ainda: nos hipermercados. Ante o inexorável abafar dos mercados.

Por isso um Mercado fatalmente diferente, o que a Câmara pretende agora revitalizar. Decerto menos próximo do pulsar dos famalicenses, mas incapaz de nos matar as saudades desse quadro vivo de outros tempos.

Porque não tentar agora repintá-lo? Com todas as garridas cores de uma manhã infrene, escadas abaixo, evitando tropeçar nos pedintes, aleijões expondo as suas mazelas, era assim, vinham de longe em busca do dia de feira, o mais propício. Era assim, hoje também é em outros escadórios quaisquer, desejemos alguma vez não seja mais. E, deixado para trás esse entretexto de Dickens, deparávamos logo com as bancas do peixe e avantajadas mulheres de faca em riste, como se o tubarão estivesse prestes a atacar.

Não seriam tubarões. Mas a variedade do pescado era muita e a concorrência feroz. Os preços não estavam tabelados, as promoções aconteciam ad hoc. Em suma, marralhava-se constantemente. Oiço ainda vozes indignadas, provocadoras, ditos sublimes, prenhes de humor, de seres que viveram ali a sua vida de trabalho e cujos nomes, cuja memória, se perderam. Urge recuperá-los para a História de Famalicão! É por isso que avanço uns passos e entro nos talhos desse tempo em que as moscas não prejudicavam a saúde e as carcaças de bovinos e porcinos, abertas quais capotes de pastores, - de guardadores de sonhos… - se ostentavam penduradas à porta. Lá dentro uma barra metálica em todo o redor, enfeitada a nacos de carne. Há em tudo isto uma nebulosa imagem do talhante Manuel do Bem. E de quantos mais? Claramente, a do Sr. Eurico, um avantajado corpanzil, o seu farfalhudo bigode e um sorriso sempre prazenteiro nos olhos escondidos pelas espessas lentes dos óculos. Era o dilecto da Avó, até a lata enorme das aparas e ossos para os cães regressava sempre cheia. Não sem que antes se falasse de coisas sérias. A Avó dizia o que intencionava cozinhar e o Sr. Eurico dirigia-se à tal barra metálica, desenvencilhava dos ganchos um bocado quase uma vaca inteira e atirava-o com estrondo para cima do mármore do balcão. Gabava os méritos da peça, mas não, não era aquilo o que a Avó pretendia. E a mão forte do Sr. Eurico reconduzia aquela semi-vaca ao gancho de onde provinha e sacava outra, esta, enfim, apta a satisfazer os propósitos da Avó, sabiamente indicando ao Sr. Eurico tirasse as peles – pesagem limpa… - e cortasse por ali, depois por acolá… - Pois sim, minha senhora, pois sim, vai ver que vai bem servida…

Ponto final nas recordações. As lojas dentro do Mercado muitas estão já vazias. As restantes decoram as montras com latinhas de salsichas em castelo. Ainda há hortaliça, fruta e flores. Só quase não há é freguesia. Visito muito o Mercado e sei-o triste. Carecendo de ideias para reanimar, ressuscitar.

Porque não, então, - sem dos sobreviventes alguém excluir – encaminhar para aquele espaço todas as muitas feirinhas que se organizam por aí? Numa época de renovadas esperanças na agricultura, porque não centrar no Mercado a produção dos mais criativos empresários famalicenses? E o que anda disperso de fumeiro, queijaria e vinhos, o mar encapelado da moda gourmet, - não será o seu porto de abrigo este mercado super?

Tudo, insisto, sem esquecer os falares, os antigos fieis mercadejantes, a alegria, a faceta verdadeiramente humana do Mercado de outrora. Serão alguns 50 anos de boas histórias ainda a tempo de não se perderem.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 03.NOV.2016)