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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Por aí...

João-Afonso Machado, 08.10.16

TELHADOS.JPGOs mais desatentos dirão é Verão. Na obsessão do sol nem repararam de madeira se fazem casas e ardem as lareiras. Sem terra, sim, mas com lar.

 

"Matriz-Arte"

João-Afonso Machado, 06.10.16

GALERIA ROMÃO.JPG

Não sei se lhe poderia chamar negócio. Nem onde se situaria exactamente. Sei apenas que em Famalicão. Teria de tudo um pouco (ou muito): miniaturas de carrinhos, postais e banda desenhada antigos, soldadinhos de chumbo, cachimbos e canetas, pilhas de alfarrábios e o que mais fosse aparecendo. A um canto um relógio de caixa alta, sóbrio e incansável no embalo da minha serenidade; mais o meu cadeirão, velhinho mas estofado a pele, com braços e de costas reclinadas. Onde eu, devidamente sentado, solicitaria aos estimados clientes não aparecessem, me deixassem prosseguir a metafísica averiguação sobre o destino de toda aquela cangalhada: como vender, desfazer-me de tanta peça bonita? 

Acontece que, sem espaço próprio, sem stock nem meios de o adquirir, sem clientela para me moer a cabeça, deixo-me ficar em casa a sonhar e assistindo à obra levada adiante pelos outros. Recentemente – vagamente aparentada com estes meus projectos, mas não inconsequente como eles, – surgiu cá na terra, pela mão da Senhora D. Helena Romão, a Galeria Matriz-Arte.

Desde logo, gosto do nome. A matriz é uma fonte de onde muitas águas – ou vidas – podem brotar, e a gente ouve-as junto ao silêncio das paredes da eclesial velhice da nossa meninice. É na Rua de Santo António, nessa mesma nesga de lojas a fugir ao bulício em que todos estão pensando. Com o número de polícia 95.

A Galeria inaugurou com uma exposição e um propósito que é o seu título: Reanimar a Arte em Famalicão. Fez um catálogo com um lindíssimo desenho da Senhora D. Helena, a lápis de cera, para a capa: o jardim, a torre, parte do edifício dos Paços do Concelho. E convidou 14 artistas que se não são de cá são parecidos. Enuncio-os: ADiasMachado, Ana Maia, Angelina Silva, Armindo Santos, Camilo Lellis, Daniel Dewasmos, Fátima Mesquita, Filomena Fonseca, Georgina Ifigénia, José Faria, José Passos, Marta Vilarinho, Raquel Fortes e Rui Rodrigues Sousa. Além da própria promotora, claro, cujo magnífico “Liberdade” (acrílico sobre tela) sublinho.

A Matriz-Arte será um ponto de encontro (um ponto de chegada e partida?...) e de trabalho. Haverá workshops sobre artes plásticas, sobre fotografia, sobre o mais que pertinentemente advenha. Não creio haja lá o tal cadeirão forrado a pele, de bom encosto, onde eu me refastelaria e pediria aos clientes para voltarem noutra altura. Mas provavelmente não ficou esquecido o tempo bastante de dois bons dedos de conversa.

E depois – ou acima de tudo – acrescenta algo ao caminho que se impõe no bom rumo da “Vila”, ora cidade. (Mas ali retintamente “Vila”.) A Matriz-Arte traz diversificação, outro modo de aprender. Ou de ensinar um ignorante como eu em pintura, de lhe fazer alguma luz mais sobre o manejo da máquina fotográfica… O melhor é irem lá também!

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 06.OUT.2016)

 

 

"A mudança de regime em Vila Nova de Famalicão" (III)

João-Afonso Machado, 06.10.16

PRAÇA DA REPÚBLICA.JPG

Por último, os ecos do Novidades de Famalicão, que tinha em Manuel José Rodrigues o director e redactor principal. É na sua edição de 13 de Outubro que divulga o “novo regime”: “para aqueles que acima de tudo põem o amor à Pátria, que são portugueses antes de serem monárquicos ou republicanos, a mudança de regime é uma questão secundária”. A desdramatização política, sem rebuço, procura encontrar plataformas de entendimento e deixar esquecidos no Passado eventuais “culpados”. Não outros senão os “desacreditados e desprestigiados representantes dos partidos monárquicos”, numa referência a uma Nação agonizante no “atoleiro em que a tinham lançado políticos desalmados e pouco exemplares”. Corajosamente se afirma “foram os monárquicos, pelos seus desvarios e pelas suas loucuras, que implantaram a República em Portugal”. Essa a verdade, a atingir a classe política, poupando a essência do Regime deposto. Daí, também, o aviso à navegação: cuidado com o “adesivismo”, citando o exemplo de “um célebre doutor que se deitou monárquico na noite de 5 do corrente e acordou no dia 6 republicano convicto”.

Nesta linha de pensamento, a mais lúcida e intemerata, prossegue, uma semana volvida (a 20 de Outubro), imputando aos monárquicos as responsabilidades pelo bem sucedido desfecho das manobras revolucionárias em Lisboa. Assim “se prova que o defeito foi dos homens e não dos princípios”.

Era o discurso possível: “a Monarquia nasceu tão isenta de defeitos, tão pura de intenções e tão limpa de escândalos como a República. Assim viveu muitos anos, atravessando épocas bem felizes e gloriosas para a Pátria, até que pela fraqueza dos homens que dela se foram assenhoreando, pelo favoritismo escandalosa e pelas tolerâncias de todos, a ordem concedida aos que iriam engrossar as hostes dos régulos da política, foi resvalando para o abismo”.

E prossegue, desassombradamente, o ataque implacável aos oficiais do ofício partidário: “dedicados à Monarquia, enquanto estas podia satisfazer as suas vaidades, e proteger os seus escândalos, os homens que a arrastaram pela lama vieram pressurosamente acolher-se à sombra da nova bandeira, apenas a viram flutuar gloriosa na fronteira dos edifícios do Estado”.

A honra e a bondade da Instituição Real tiveram no Novidades de Famalicão o seu ilustríssimo e corajoso defensor. O qual, de resto, não se poupava em augúrios pessimistas, precisamente porque, com a maior clarividência, se interrogava acerca das façanhas ainda expectáveis dessa classe ainda e sempre presente nos diversos cargos públicos.

Neste enquadramento, não era de forma entusiasmada que registava as diversas alterações logo promovidas na toponímia local: o Largo do Príncipe Real redenominado Largo da República; a Rua de Santo António, agora Rua Cinco de Outubro; a Rua de João Franco, Rua Cândido dos Reis; a Rua Direita, Rua Miguel Bombarda…

A edição de 3 de Novembro mantém o discernimento e recomenda aos católicos ponderação, calma, esperança. O Governo encetara já a sua cruzada anti-clerical, mas “o mal é dos homens, não do regime”. Por causa dos seus erros caíra a Monarquia. E “o mal de que padecemos, que esteve quase a perder-nos no tempo da monarquia, e de que continua ainda infelizmente a enfermar a sociedade portuguesa, esse veneno que parece ter intoxicado todo o organismo da nação, está na falta de confiança recíproca entre governantes e governados”.

Nada, absolutamente nada, mudou de então para cá… 

NOTAS FINAIS:

Da análise da informação veiculada pela imprensa famalicense disponível é possível extrair algumas conclusões:

- A implantação da República foi acolhida no concelho com significativa indiferença por parte das populações. Somente a fatia urbana e mais favorecida económica e culturalmente se manifestou pela positiva e sempre com notório comedimento.

- A ausência de pronunciamentos, aderindo ou rejeitando a movimentação revolucionária, resulta do alheamento generalizado do povo face aos assuntos políticos, da instalada desconfiança face às organizações partidárias e à classe dirigente. Algo que vinha de trás e não se alterou.

- Todas as transformações produzidas, nomeadamente no plano administrativo, foram obra de um grupo minoritário mas militante, a Comissão Municipal Republicana.

- V. N. de Famalicão não escapou à regra: como por todo o País, viveu diversos casos, mais ou menos escandalosos, de adesivismo.

- Por último, não será despiciendo comparar a reacção – o entusiasmo – popular (sempre de acordo com as notícias dos jornais) em 5 de Outubro de 1910 com o episódio chamado “Monarquia do Norte”, ocorrido no início de 1919, conforme a minha exposição no Boletim Cultural de V. N. de Famalicão (nº 5, III Série, 2009).

 

(in Boletim Cultural 2014/2015, IV série, nº 8/9, ed. Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, 2016)

 

 

"A mudança de regime em Vila Nova de Famalicão" (II)

João-Afonso Machado, 05.10.16

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Curioso será também atentar no comportamento de um outro periódico – O Famelicence, “Órgão semanal dos interesses do concelho” – de que era director e proprietário José Maria da Graça Soares de Sousa Júnior. A 6 de Outubro, quando o telégrafo já decerto trouxera as novidades revolucionárias à província, o tema ainda se mantém arredado das suas colunas. Mas, logo a 13, o editorial é rimbombante: 

POVO HERÓICO

Lisboa acaba de dar ao mundo o exemplo mais alevantadamente de patriotismo e a mais grandiosa lição de heroicidade (…)”. 

E, mantendo sempre o tom encomiástico, enaltece a “alma portuguesa”, a “coragem dos revolucionários”, a “tolerância dos vencedores”… pela qual, decerto, esperara uma semana antes de tomar partido contra a “monarquia minada pelos seus próprios servidores”, o que era objectivamente verdade -  a avaliar pelo restante da exposição: “para nós que sempre nos mantivemos numa completa independência de sectarismos, mas profundamente partidários de tudo quanto concorra para a ressurreição da pátria, o novo regime marca o início de um grande acontecimento nacional”.

O jornal saúda efusivamente o povo de Lisboa – porque não fora outro a fazer a República – e expressa o seu desejo de uma vida nova, de “Ordem e Trabalho”. Esboça uma nota sobre Bernardino Machado, um “quase nosso conterrâneo” (muito menos então do que agora…), “elevado a um dos mais altos cargos da República portuguesa”. E transcreve uma “carta de Barcelos”, também ela salvando o “glorioso povo de Lisboa”.

Definitivamente, Famalicão, o Minho, toda a ambiência da província, não comungavam na Revolução. Aderiram a ela, depois de consumados, seguramente confirmados os factos e a mudança de Regime.

A 20 de Outubro, o editorial intitulava-se “Prosseguindo”. Utilizando regras básicas de prudência, ia dizendo o expectável quanto ao futuro político do País, nessa obra de construção do “novo templo”: sabedoria, justiça, fraternidade, instrução – um tema ainda abordado na semana seguinte.

Também O Famalicence se pronuncia a favor da bandeira azul-branca que Guerra Junqueiro e os mais moderados tentavam opor ao pendão rubro-verde imposto pelo Partido Republicano, facção afonsista e radical.

Por fim, - aspecto relevante – o número de 17 de Novembro noticia uma conferência do Centro Republicano local. Foi orador o Conselheiro Sousa Fernandes e os seus propósitos eram transparentes: não obstante o que considera a “adesão espontânea” de muitos cidadãos, na já mencionada sessão decorrida nos paços do concelho, a verdade é que recebera “ordens superiores” para abrir o “livro de inscrições de sócios” do “centro democrático” da vila à disposição dos interessados. “De nada vale qualquer outra adesão que não revista esta formalidade” – a do compromisso político com a República selado com a assinatura de cada um…

Havia que combater o sentimento monárquico, ainda e sempre bem arreigado no espírito dos portugueses. Persuadindo, pressionando, sem dúvida intimando.

 

(in Boletim Cultural 2014/2015, IV série, nº 8/9, ed. Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, 2016)

 

 

"A mudança de regime em Vila Nova de Famalicão" (I)

João-Afonso Machado, 04.10.16

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No dia 5 de Outubro de 1910, precisamente, o semanário Notícias de Famalicão, sub-intitulado “Órgão do Partido Regenerador local”, vinha a público com um longo editorial em que prosseguia acesa polémica com o seu congénere Regenerador sobre a influência do Abade de S. Cosme do Vale na eleição da Mesa da Santa Casa da Misericórdia. A expulsão dos “frades da Aldeia da Ponte” dava o mote à entrevista ao Par do Reino Joaquim Teles de Vasconcelos, e assim ficava preenchida a primeira página desta edição do sobredito periódico.

V. N. de Famalicão, como o País, de norte a sul, ignorava o que, a esse tempo, agitava Lisboa e produziria o fim de um regime quase oito vezes secular – a Monarquia portuguesa.

Substituiu-o a República, como se sabe. E como esta foi recebida na nossa terra pode, decerto, ser apreendido através da leitura do número seguinte do Notícias de Famalicão, datado de 12 desse mês.

Passemos os olhos por ele.

A toda a largura da sua fachada principal, inscrevia-se: 

Após uma luta grandiosa em actos de valentia, travada nas rua da capital, acaba de triunfar a vontade popular – a implantação da República Portuguesa

Agora, portanto, todos podemos gritar livremente:

Viva a República!” 

Seguia-se um veemente apelo à dignidade da conduta dos cidadãos, a uma sua exemplar manifestação de civismo. Era de esperar, doravante, um “Regime de Ordem e Trabalho”, sem excessos quaisquer. Enfim, preconizava-se uma “Democracia honrada”, necessariamente “forte no dia de combate mas generosa no dia da vitória”.

O temor do Director do Notícias de Famalicão, Guilherme da Costa e Sá, e do seu Administrador, António Maria Pereira, era inocultável. Nessa edição de 12 de Outubro, o jornal deixara já pelo caminho o sub-título “Órgão do Partido Regenerador local”. A sua adesão à República foi pronta, apressadíssima, quase pedincha. Sem rebuço quanto à surpresa em que haviam caído, infantilmente formulando votos de um sol novo a aquecê-los também. Deste modo, ainda: 

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

Está proclamada a República em Portugal, tendo este facto tão extraordinário como inesperado ecoado com verdadeiro assombro em todo o País, que recebeu o novo regime com benévola expectativa, confiado apenas nas promessas dos seus processos de administração”. 

O recado era para os fautores da revolução. E traduzia uma vontade de adesão, assim o novo Poder político esquecesse também o seu passado monárquico. Solicitamente transcrevem a composição do Governo Provisório, conforme o anúncio publicado na folha oficial. E esmeram-se na narrativa da entronização (termo meu…) da República, em cerimónia levada a cabo a 7 de Outubro: 

A proclamação em Famalicão

No sábado último, pelo meio-dia, nos paços do concelho e perante numerosa multidão, o sr. Joaquim José de Sousa Fernandes, presidente da Comissão Municipal Republicana, comunicou num eloquente e caloroso discurso a proclamação da República Portuguesa.

Explicando ao povo o motivo daquela grande reunião (…) terminou por declarar que, em nome do Governo provisório do novo regime, ali proclamava oficialmente essa República redentora da nossa Pátria”. 

O que havia sucedido? Aquilo que sempre acontece após qualquer revolução. Sousa Fernandes, um abastado proprietário famalicence, com currículo feito no Brasil, fundou (em 1895) a Comissão Municipal Republicana local, agregando os muito poucos partidários desta causa quase sem expressão política na vida do concelho. Consumada a queda da Monarquia, o mesmo Sousa Fernandes, ao que parece cumprindo instruções oriundas da sede distrital, convocou as gentes, deu a conhecer a consumação dos factos e… declarou a República o regime vigente. Para o que mais não terá sido necessário, ainda conforme o Notícias de Famalicão, senão um vibrante e sonoro “Viva a República!” por si largado e pelos presentes “acolhido com muito entusiasmo”.

Logo se aprestou a tomar posse da administração do concelho – nas revoluções o tempo urge e a consulta popular em regra é dispensada – em cerimónia a que assistiram “as pessoas mais gradas da vila e do concelho”. Efectivamente. E no número preciso de 174 “cidadãos” a assinar a acta lavrada então pelo secretário da Câmara Municipal. Nenhum dos aderentes ao novo regime é esquecido na reportagem efectuada pelo Notícias de Famalicão. Do rol sobressaem alguns dos mais conhecidos apelidos do comércio local. Mas somente seis eclesiásticos manifestam a sua anuência à República. E o Director e o Administrador do periódico, ainda regenerador a semana anterior, também eles aceitam a revolução e subscrevem o mencionado documento. Do mesmo modo procede Daniel Santos, até à data o Presidente da edilidade. A qual, de resto, foi logo tomada de assalto pelos “restantes membros da Comissão Municipal Republicana” e, em uníssono, prodigalizou elogios a Teófilo Braga, ao Governo Provisório, aos combatentes da Rotunda.

Enquanto tal, a vida prosseguia naturalmente, ruralmente, nas freguesias do concelho. No contínuo amanho da terra que a Política, todos sabiam, não fertilizava.

Corre uma semana. Ainda longe dos tempos mais turbulentos, o Notícias de Famalicão toma partido, no editorial de 19 de Outubro, na questão da nova bandeira. Quere-a azul e branca, sem coroa (como já não fazia sentido), e cita Guerra Junqueiro, o grande defensor desta solução de continuidade nacional. Eram as cores da Fundação… E sob o título “Com nariz de dois palmos” vira-se contra “certos tartufos”, convertidos tardios, hesitantes, presentes na referida sessão promovida por Sousa Fernandes, onde não tinham “tido a coragem e independência de carácter de assinar o auto de proclamação do novo regime”. Era já a troca de acusações de adesivagem. Justificava-se, por isso, o Notícias de Famalicão: “nunca militámos no partido republicano que conseguiu implantar no nosso país o regime da República: militámos sempre num partido que era monárquico e fomos aderir ao novo sistema, como foi e pelas mesmas razões a grande maioria da nação”.

Ainda nesta edição é notícia a conversão de mais 70 cidadãos e a nomeação dos novos regedores das freguesias, por iniciativa e mando de Sousa Fernandes, o Presidente da Comissão Municipal Republicana.

 

(in Boletim Cultural 2014/2015, IV série, nº 8/9, ed. Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, 2016)

 

 

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