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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Morreram todos, os velhos

João-Afonso Machado, 01.07.16

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Uma chusma de crianças há vinte e tal anos rodeou o carro no final da viagem, poeirento, comprimido num caminho onde o gado assinalava sem cerimónia a sua passagem diária. Como se a minha chegada fosse alguma profecia das Escrituras e não apenas curiosidade, o eco das lendas comunitárias e de um povoado pouco interessado em saber se era português ou espanhol.

O rio Onor trazia lixo encravado nas margens, surreal visão nos confins de Montesinho, a ponte era proporcionalmente insignificante, e nas cortes guardava-se uma quantidade inesperada de alfaias agrícolas modernas e muita abundância de bovinos e caprinos. Não topei mais do que lavoura, a tal vida feita por todos e para todos. O povo não disfarçava o espanto, queria saber tanto de mim como eu daqueles fossilizados hábitos perdidos num cantinho do mapa.

Correu este tempo já incontável.

Fui reencontrar Rio de Onor na periferia de um parque de campismo. Entre letreiros de um bar e de um restaurante. Com um açude a borbulhar águas fugidas da prisão, o ribeiro agora marginado em pedra certinha, muito transparente. Ao som de vozes genuinamente francesas e já sem terra batida, nem gado, nem criancinhas. Ou melhor: com uma, filha do proprietário do dito restaurante, a mais nova das 50 almas que constituem a população da aldeia.

E o gado comunitário? - perguntei. - Isso acabou há muito - explicou o patrão do bar. - Os velhos morreram todos.

Espreitei a igreja, dando ares de modestos melhoramentos recentes. Abri o portão e entrei num quintalzinho de paredes brancas que é o cemitério. Andei com os olhos pelas escassas lápides: estavam lá os velhos todos de há vinte e tal anos.