Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O meu domingo de alguma vez

João-Afonso Machado, 17.05.16

AO DOMINGO.JPG

Seria assim que eu fui. Talvez não tão florido no guiador mas também com o transistor zelosamente guardado na algibeira do casaco. A fumar Tamariz aos domingos e de pétalas carregadas de cor na lapela e no chapéu e dentro da transparência do meu isqueiro novo. Isto no dia de visitar a moça para quem falo, assunto sério, bem intencionado, a exigir duas molas do estendal na baínha das calças e redobrados cuidados para não manchar de óleo as minhas meias brancas. Sempre com um ror de quilómetros ao pó dos caminhos ladeados de campos e erva para o gado - caminhos do demo, o Senhor me perdoe, mas há marés em que um homem tem de vir abaixo da bicicleta, trepar a ladeira de mãos dadas com ela, nada de chegar molhado, luzidio de suor, os óculos estrangeiros que um cigano me vendeu a fugirem pelo nariz fora.

Nada de atrasar ainda mais o beijo que espero há semanas, para calores já basta a febre que me consome a tarde toda de domingo, não há relato nem Benfica que a apague, eu sempre a jurar-lhe que falo para ela hoje e para o ano e para sempre, com o altar pelo meio... Mas qual quê?! Que podemos esperar, que o pai vem aí e a vizinha está na janela à espreita!...

Seria assim que eu fui, ainda o sarrabulho a pesar cá dentro e já a fazer-me à estrada, a embalar na rampa, todo boas cores, o cabelo cortado e o bigode bem aparado, que o barbeiro vem sempre lá por casa ao fim da manhã, logo depois de cumprido o preceito, ele e aqueles pozinhos cheirosos que não deixam o colarinho da camisa apegar-se ao pescoço agora que o sol de Maio carrega na gente.