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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Uma 'Cãominhada' no Parque"

João-Afonso Machado, 12.05.16

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Mandaram-nos estar lá cedo, era o “dia do trabalhador” e havia muito para carpinteirar. Fomos com os nossos ajudantes, nós os assessores da Tareja e da Dona Mécia e do Egas mais famosos de sempre. A manifestação adivinhava-se grandiosa, plurirracial.

Ao longe percebia-se já o Parque da Devesa apinhado de cães passeando os seus donos. A manhã era deles, da imensa babel deles, povoando Famalicão e arredores. Alguns de linhagens bem definidas, outros nem tanto. Mas isso é apenas um pormenor.

Porque importante, importante, é a percepção de quanto mudou no espírito das pessoas – o bastante para percorrer a longa travessia entre as coisas e os seres. E os cães são seres, não são coisas. Têm, como aprendi desde pequenino, sentimentos tão díspares como o medo, a meiguice, a preguiça ou a gratidão. Ou a malandrice e o orgulho. E têm memória, uma forma muito própria de raciocínio até, à moda deles, e cultivam hábitos, sentem como nós o frio e o calor, a comodidade e o desconforto. Em suma, os cães já não são jecos.

Assim desfilaram orgulhosamente no dia 1 de Maio – como poderia ter sido noutro dia qualquer: todos são “dia do cão” – dando a volta ao Parque, ostentando as suas mais vistosas gravatas (como nós usamos coleiras), os seus coletes de eleição. E sem esquecer os pobrezinhos, os ignorados da sorte, os canitos pedindo adopção urgente. É famosa a solidariedade dos cães, muito mais do que a dos homens. Ponha cada um os olhos em si – ocorre-me agora, até onde vejo eu para além do pedigree dos meus perdigueiros e, é claro, da dedicação com que me agraciam? Onde topar nas esquinas do planeta olhares mais dedicados, mais a pedir um beijo? E o que é um simples rafeirito menos do que um registado no LOP?

É nada. Rigorosamente nada. E isso ficou bem patente na manif do passado dia 1 no Parque. Sem distinção alguma, apenas trazendo a reboque o desvelo, o carinho, a alegria dos donos dos seus corações. Está cada vez mais difícil, creio, encontrar por aí um lar a cuja família não pertença – por inteiro – juntamente com os hominídeos de que somos uma imagem semi-pelada, os canídeos que eles tão bem representam.

Esta não foi a primeira cãominhada – julgo ter sido a terceira – e é desejável não seja a última. Para o ano haverá mais?... Eu insisto, a iniciativa traduz uma importantíssima revolução de mentalidades e justiça que se faz ao “melhor amigo do homem”. Na realidade, ensina-nos a experiência, ainda está por descobrir um cão que tenha abandonado o dono, ao contrário de tantos donos que diariamente abandonam os seus cães. E isso é uma monumental lição de vida, uma pecha de vergonha sobre a nossa alegadamente superior condição dita racional.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 12.MAI.2016)