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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Romagem à Boavista

João-Afonso Machado, 03.05.16

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Foram mais de vinte anos de vida. Ali pela Boavista e suas cercanias, entre a casa e o escritório, diariamente, rotineiramente, cumprimentando os transeuntes de todas as manhãs, de todas as tardes, como se passeasse na quietude familiar da aldeia. Perco a conta às caras por Cronos entretanto tragadas; e aos estabelecimentos que foram e já não são, como tudo pode ser tão diferente no envelhecer - ou no modernizar... - desse quintal, afinal um dos orgãos vitais do Porto. Não torno lá não descubra retratos escaqueirados, novas molduras no lugar de vultos idos para sempre, ou então as rugas vincando gente que conheci no pleno vigor dos seus negócios, rodopiando calendários e calendários todo este traço de existência. A drogaria do Sr. Carvalho, suspeitosamente encerrada aquando das anteriores romagens à Boavista, escancarava a porta aos ares solarengos de hoje. Entrei.

- Apenas para o cumprimentar, Sr. Carvalho! Como está? Há quanto tempo! - Muito obrigado, Sr. Dr.! Realmente não o tenho visto, o que é feito de si?

Expliquei o meu regresso à pátria, perguntei-lhe pela saúde. Percebi, o balcão é como um cordão sanitário... E, incapaz de ir embora sem um souvenir da vida antiga, fui deitando o olhar em redor, até aquela prateleira além, onde petrificava uma formatura de desodorizantes em recipientes de vidro, o produto envolto em capa de plástico: contra os maus odores e, mais contudentemente, excelentes para lançar à cabeça de algum gatuno dentro de portas. Era os sticks, com tampa em alumínio de enroscar. Também eles em revolta aberta contra Cronos.

Trouxe dois. E despedi-me duas vezes, à cautela - Adeus, Sr. Carvalho, até à próxima! - Foi um gosto, Sr. Dr., tê-lo por cá!

Na prateleira, o desenho de alguns sticks ainda. (- Os mais velhos é o que preferem...). Oxalá o stock não esgote... Mas ninguém sabe as partidas de que o Tempo é capaz...

(E a eternidade dos outros também a construímos nós).