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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O neto

João-Afonso Machado, 09.01.16

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Há ainda por resolver o pequeno problema da incontinência, mas optou-se por tirar-lhe as fraldas e mantê-lo em solos de lavagem rápida, cerâmicos, os da cozinha e da lavandaria. As quais ganharam entretanto um cheiro diferente, não tão bom quanto o antigo. Enfim... À trela vai já muito bem, no elevador perfeitamente, entrando e saindo com o maior desembaraço.

Avança para o gato sem medo, como se este não bufasse ameaçador, apenas por querer brincadeira. É obediente... O neto tem tudo para alegrar uma velhice assim que se abstenha de latir toda a noite, a chamar vá lá saber-se quem. 

 

 

O avô

João-Afonso Machado, 08.01.16

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Nos últimos tempos, a barba muito embranquecida, puxava-o a artrose para a sombra em que descansava e via os outros brincar. Mas o olhar era o mesmo, entre o atento e o amigo, o meigo e o façanhudo. E as orelhas também, à espera das mãos a consolarem-nas, a falar horas a fio com ele. Porque dominava perfeitamente o português e sabia da vida o que jamais se poderia contar a alguém. Gostava de dormir no tapete ao lado da cama. É, o seu olhar, além de atento, garantia ainda toda a confidência.

Por isso aqueles dizeres tão em uso essas jazidas adiante - o tempo passa mas a tua memória permanece - carregados de verdade, os cães merecem e têm uma eternidade muito sua, isenta de maldade, vazia de traição. O velhinho está lá, sob as ramagens da ameixoeira.

Agora é a vez do neto. Se ele sair ao avô, há outro velhinho feliz neste mundo. 

 

 

"A samarra"

João-Afonso Machado, 07.01.16

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Enquanto me entretinha fazendo contas aos anos que faltavam para voltar à terra, apimentava projectos com acessórios diversos, por exemplo prevenindo a invernia famalicense. Achei então ficaria satisfatoriamente guarnecido com um capote alentejano de gola magnífica a encher os ombros até às orelhas. Algo pouco usual por cá, de repente ocorrem-me apenas os encapotados nomes do Sr. Malvar, de boina negra, hirto, horas a fio e expressão grave à porta da sua loja de ferragens; o Nuno Carvalho, elevada e fadista estatura; e, presentemente, o meu ilustre Colega Dr. Vieira Pinto. E o tempo assim foi andando, de tribunal em tribunal, cada vez mais primaveril, desencorajando ir tão pernas abaixo, o capote talvez excessivo e adiado, adiado… até que a feira de Penafiel me trouxe à memória a bela recordação das samarras. Como aquela, em segunda mão, comprada por 50$00 na Feira da Ladra e 800$00 na lavandaria, e as demoradas antigas rotas de Lisboa nela aquecidas. Sabiamente fiz o apontamento sem tomar qualquer decisão. A ver iriamos…

Semanas volvidas, dei comigo a vasculhar antigos edifícios da Vila, desses que a gente nunca sabe o que amanhã pode acontecer e o mais prudente é tirar-lhe o retrato hoje mesmo. Na esquina das Ruas Alves Roçadas e Vasconcelos e Castro, lá se arredonda o prédio de dois andares, construção do pós-Guerra, o cimeiro habitacional, o outro de serviços, em que não esquece o antigo consultório do saudoso Amigo Dr. Horácio Jácome, médico sempre prontíssimo da minha Avó, como também não esquece, a toda a extensão do seu rés-o-chão, o toldo da Mercearia Lima.

(O Lima, um rapaz simpático, padecendo de doença grave que precocemente o levou, foi meu contemporâneo no Liceu; a Mercearia, do seu Pai, encerrou antes ainda, dizem-me que em 1982, quando as minhas vindas a Famalicão eram esporádicas e bastante aceleradas).

O estabelecimento quase merecia os galardões de supermercado. Não posso dizer fosse cliente – eu era mais cafés e pastelarias - mas no sossego das fotografias antigas sorvo-lhe agora todos os aromas e variedade de géneros natalícios… E neste lote de invocações surge o pronto-a-vestir que lhe sucedeu – a Texmoda – e ainda lá está. Conforme constatei sempre de passagem, sempre inspecionando as suas montras, até por fim descobrir, pendurada do outro lado da vidraça, a minha samarra.

Entrei, apresentei-me, conheci o gerente, Sr. Cândido Gomes. Falámos demoradamente sobre a samarra, provei-a frente ao espelho, prometi voltar. Tinha gostado do toque clássico da vestimenta exposta. E cumpri a promessa, após uns dias de meditação apareci de novo. Despedindo-me esta vez já embrulhado na samarra, a treinar para quando o frio voltar também.

Há realmente coisas que só nas lojas da Vila. Onde permanece o vagar onde ainda é possível reconstituir os antigos escritórios das empresas de camionagem – a acinzentada Magalhães, a rosada Ferreira das Neves, a pluricolor Soares – a loja de plásticos e artigos desportivos do Santana, o ronceiro elevador para os tormentos odontológicos no Dr. Áureo Moreira, mesmo o escalavrado cinema, a Padaria Torres… e tantos e tantos quadros que o quotidiano famalicense deixou para trás. Talvez porque tivesse de ser assim, mas nunca deixando esquecer quando era assado.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 07.JAN.2016)

 

 

Cândidas candidaturas

João-Afonso Machado, 06.01.16

Não é possivel os debates entre os candidatos à presidência da República tenham qualquer utilidade. Salvo, talvez, para pôr a descoberto os tiques mais foleiros da política portuguesa. O seu logro permanente.

Assim Marisa Matias se propõe chefiar o Estado enquanto faz carinhas e ajeita a repa e Edgar Silva persiste em representar o povo trabalhador contra os (fascistas?) por ele apodados "não trabalhadores"; e Paulo Morais martela a tecla da corrupção sem desmanchar a poupa e Maria de Belém não obedece ao moderador e fala, fala, fala, e o académico Sampaio da Nóvoa tem mais para dizer mal de Marcelo do que para explicar de si mesmo; e o silêncio cai pesadamente sobre a mensagem do grande Tino!

Já Rebelo de Sousa passeia a sua alegada substancial vantagem e dá-se a luxos, a palmadinhas nas costas de Costa, a poses de estadista, cumes de ponderação e equidistância, sorrisos complacentes. Reconheça-se, tem atrás de si uma matilha furiosa; reconheça-se também, essa matilha contra si é furiosa quão pouco inteligente. A facilitar-lhe a missão.

Ocorria, enfim, a hipótese Henrique Neto: a sua experiência de vida, o testemunho que desinteressadamente quereria deixar - de Henrique para os netos... Mas não, soando o apito para o debate, lá puxa ele da cábula onde registou os podres do passado dos seus antagonistas... E nada acrescenta.

São todos iguais. Todos candidatos à vacuidade. Esclareçamos rápidamente, antes das vaias, - legítimos, legítimos, não está em causa a sua legitimidade.

 

Lugares da memória

João-Afonso Machado, 05.01.16

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Nesses franzinos quinze anos, o fim-de-semana fora, nunca o passara em tal cidade, a tarde de inverno caminhando com ele para o escuro, como se duvidasse também do percurso. Sobretudo naquela divergência de ruas, seria por aqui?, seria por ali?, no momento para sempre presente do triste cortejo vindo de lá, do lado de cima. Amparando-se em lágrimas no gradeamento de ferro.

Era um funeral. A gente costuma dizer enterro, mas não, o caixão - de pinho levezinho, pronto a ser comido pela terra - ainda seguia numa carreta empurrada à mão - defunto pobre! - ainda à distância - como se o tempo continuasse a contar... - ainda a cumprir rituais, antes de ser enterrado.

Os mais próximos choravam, as vizinhas consolavam-nos, e o resto do bairro seguia atrás. Arruamento adiante, nesta direcção, desprovidos de confrarias, apenas umas coroas de flores em algumas mãos, poucas, as apropriadas ao anonimato, ninguém soube dizer quem era.

Foram-se décadas, ficou a imagem, uma impressão de medo. Mas a única derradeira pincelada sobre o absoluto desconhecido. Um ínfimo, mas bem intencionado, contributo para a sua eternidade. 

 

 

Primeira partida

João-Afonso Machado, 02.01.16

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Parece um telegrama expedido de uma antiga pressa qualquer. Ditado no meio da confusão da gare, numa onda de chegadas e desta primeira partida -  a do Pico. Vai para a cidade, está que parece do lado de cá do oceano que aguarda impaciente a sua travessia.

Futura-se-lhe o conforto, um mundo distante do rural. A família despediu-se, quem sabe? até um dia. Saudades? - Stop.

 

 

Cristas para cima

João-Afonso Machado, 02.01.16

Ninguém é amigo de perder e Paulo Portas sê-lo-á menos ainda. O seu afastamento dos cenários políticos próximos traduz isso mesmo e o resto que o tempo dirá.

Fica por saber da sua sucessão. A dúvida está já numa formulação final: Melo ou Cristas?

A resposta é Cristas, Assunção. O CDS não pode deixar de acompanhar a sua própria fasquia eleitoral e Catarina Martins há-de ser traduzida à direita: sem o que a envolve de mitos urbanos, antes no contexto pessoal, familiar - axiológico -  que nós, os pós-pós-modernos, livremente, despreconceituadamente, muito prezamos. Assim como quem não sente necessidade de esconder que é da Província...

Portanto, uma previsível liderança feminina no CDS. Uma personalidade simples, cativante, inequivocamente honesta e trabalhadora. O que tudo não deverá significar ingenuidade. Não se espera de Assunção Cristas uma actriz, no palco político ou em outro qualquer. Mas pede-se-lhe tenha sempre presente a reacção de Ricardo Araújo Pereira, no Isto é tudo muito bonito, mas, quando lhe propôs a tratasse simplesmente por Assunção e ele perseverou no "Sra. Ministra" até ao fim da entrevista. É que basta naturalidade para cativar muito mais do que a pose, colocada a três quartos e um olhar sedutor, de Catarina Martins.

 

 

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