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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Natividade

João-Afonso Machado, 18.11.15

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Foi de madrugada, há uma semana. Três mais três, entre machos e fémeas. A gente derrete-se, obra daqueles olhares de mãe, entre a confiança e o medo, se pegamos nos cachorros para ver o que está ali. 

Nunca percebi, acompanhando estas infâncias e juventudes, porque há gente com vida política no horizonte. Ou outra coisa qualquer que, por absoluta loucura, se deixe levar no sussurro das ramagens e não produza para manter o mundo rural.

(Viciosos desabafos meus, soprando para longe a alegria de uma ninhada nova. Uma semana é só o começo, daqui a um mês a brincadeira será a sério).

O pai é de um bom canil minhoto. Está cumprida uma geração brilhante. Muitos parabéns, Tareja! 

 

 

Do que se percebe em República e não se aceita em Monarquia

João-Afonso Machado, 17.11.15

Fala-se pouco em Vítor Crespo, o escolhido chefe do Governo da AD após a demissão de Balsemão, em 1983, recusado pelo Presidente Eanes, não obstante a maioria parlamentar que o suportava e somente porque os seus mentores políticos - Melo Antunes, exactamente - assim manobraram.

Nunca se falou muito da desdita da coligação maioritária PSD/CDS, após Santana Lopes e a convocação de eleições pelo Presidente Sampaio, episódio marcante da milagreira ética republicana.

Fala-se e brada-se contra o Presidente Cavaco e a sua falta de pressa em chamar António Costa a Belém.

Falemos claro: Cavaco aguarda o, no seu entender, probabilíssimo desentendimento entre socialistas, comunistas e bloquistas para esgrimir o argumento da instabilidade e da fragilidade da solução arquitectada por Costa, e deixar as coisas andar a ver no que dão. Não é diferente dos seus antecessores - apenas está no lado oposto.

(E, do meu ponto de vista, comete outro erro cujo resultado será um cimento mais forte à esquerda, uma governação que, afinal, perdurará muito além do desejável. Quando bem poderia ir ao fundo já na discussão do Orçamento para 2016).

Mas tudo isto é natural e próprio dum Regime republicano, semipresidencialista e partidocrata. Ao aceitá-lo (este Regime) não podíamos querer diferente.

Há dias, entretanto, SAR o Senhor D. Duarte disse em entrevista daria pernas a um Executivo de Costa. Logo o ultramontanismo se indignou e invocou D. Miguel e Salazar. Compaginando o Rei e o ditador... Como que ignorando confrangedoramente a Monarquia actual só pode ser de base parlamentar, competindo ao Trono - não apenas cortar fitas, à moda de Américo Tomaz - manter um contacto permanente com as forças vivas da Nação de quem é o símbolo vivo. Porque a Nação o aceita como tal na exacta medida em que se mantém equidistante das querelas partidárias.

Ou alguém estranhou Juan Carlos de Espanha tenha empossado Felipe Gonzalez e Zapatero à frente de governos socialistas?

Em boa verdade, não são apenas os radicais islâmicos a operar maravilhas através das redes sociais: a Maçonaria (descredibilizando a Dinastia) também consegue amputações cada vez mais irreversíveis.

 

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 17.11.15

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Era numa escadinha assim estreita, magrinha, entre vizinhas gordas e muito cozinheiras que eu todos os dias – Boa tarde!, Boa tarde! – treparia os degraus e encostava a bicicleta. Num fôlego eterno de escrever a serra imensa em redor de tão flagrante pormenor.

 

 

 

Porquê? Porque sim

João-Afonso Machado, 16.11.15

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São 28 degraus revestidos a madeira e uma procissão de gente a subi-los ajoelhada. A Scala Santa. O percurso de Cristo na morada de Pôncio Pilatos no dia em que o condenaram à morte; uma viagem de Jerusalém até Roma, junto à Basílica de S. João de Latrão. Dizem. Tudo está depois no empecilho de acreditar. O mais difícil, a execução desse complicadíssimo "acreditar". Dar crédito? (Emprestar?) Crer? (Aceitar?) A Semântica, a História, a Teologia, a cabeça à roda e o súbito impulso do "querer" - subir a Scala Santa em joelhos, com as mãos a almofadá-los. Doeu.

Foi em 2011, mas as fotografias são sempre retalhos de vida trazidos à memória. Lembro apenas, não quis fazer um exercício fisico, antes algo diferente. O quê? - os negócios do espírito realizam-se na intimidade de cada um, eu não creio na Apologética, rejeito catequeses. Somente há estados de alma sempre assim se traduzindo em manifestações externas. Ainda que, eventualmente, «O único sentido íntimo das coisas/É elas não terem sentido íntimo nenhum» (Alberto Caeiro).

Ficou a realidade, sobretudo a realidade sensitiva. Mesmo porque no meio da multidão sempre conseguimos passar despercebidos. 

 

 

Onde e quando será o próximo?

João-Afonso Machado, 14.11.15

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De repente, Paris parece tornar-se, entre as grandes capitais, a mais permeável. Será talvez apenas a mais apetecível. O que significa nenhuma está livre de ver chegada a sua vez. Como, para cada um de nós, a Morte. 

E assim vamos, enquanto não, participando no velório dos outros. Pela televisão, cómoda e curiosamente. Com horror, espreitando o (ainda distante) terror.
O Mundo está em guerra. O problema é do domínio do Direito Internacional e já não do Direito Criminal. Aliás, que agravamento de penas eficaz (estou a pensar na legislação anti-terrorista) se os agentes, eles próprios, se oferecem em suicidio?
O Mundo já esteve em outras alturas em guerra. O problema é que, nesta, o conceito de invasão foi substituído pelo da doença endógena. O vírus está cá dentro e a epidemia grassa. Como combatê-la?
 
 

Entroncamentos

João-Afonso Machado, 14.11.15

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Na memória, muito canora, a batida metálica ao rodar dos quilómetros nos carris e o repetido apitar do comboio. Partira de Lisboa Santa Apolónia-Santarém-Entrocamento-Pombal-Coimbra-Pampilhosa-Aveiro-Estarreja-Espinho-V. N. de Gaia-Porto Campanhã. Durante nunca menos de quatro horas às vezes afundadas sem pressa alguma nas cheias da Lezíria ou em outra qualquer inexplicada demora.

Era o semi-directo porque o rápido ou o foguete não podiam ser, a bolsa não deixava. Era o vagar de ler, pensar nas pequenas e, no regresso (Porto Campanhã-V. N. de Gaia-etc.-etc.-Lisboa Santa Apolónia), o aflito marranço da sebenta em véspera da frequência.

A Ponte D. Maria (fotografia que o Destino não quis...) em pezinhos de lã, não fosse ela tropeçar e cair, e tudo isto razoavelmente de dia. A longa noite, então, não havia estação ou apeadeiro que não inspeccionasse, de porta em porta como os carteiros. No correio, aos fins-de-semana interiormente decorado de verde-recruta aromatizado de boçalidade e humedecido em cerveja. Sempre a revolução, connosco, os perdedores, contando os minutos todos como estátuas de cabeça posta nos varões das janelas. E quantos milhões de minutos! - suportados em cima das pernas, passo a passo com o carteiro, o impiedoso desacelerar do comboio mal começava a ganhar velocidade, outra paragem, outra entrega na escuridão, um longo apito a furá-la, o lento recomeçar da marcha, ignotos lugares, inúteis esperanças, a magalada também fazia Lisboa Santa Apolónia-centenas de etcs.-Porto Campanhã (e nos inversos etcs. sempre eles e nós outra vez), a fila de espera inundava as coxias e os corredores, teríamos por assento as pernas apenas e por almofada os braços, no encosto dos varões das janelas. 

 

 

Ausência expulsa

João-Afonso Machado, 13.11.15

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Há coisas que só se escrevem no silêncio do amanhecer, com todo o vagar para desenhar dizeres nunca surgindo. Sequer a caneta pretendida, essa de um tribunal adiado e muita prosa sucumbida à mesa do café, uma caneta já velha, de carga muda, vazia, que afinal não estava lá, ao alcance do coração. É com outra, vinda não sei de onde nem quando. Vinda de antigamente num enorme hiato de memória que foi o que na realidade aconteceu. Já sem remédio, levo-me a pensar à procura de uma expressão sempre em fuga.

A perguntar-me porquê tantos anos sem um almoço, um telefonema. Ao menos, o nosso encontro de há um mês, o que se disse, o resumo de uma amizade que tanto agradeço. Ou a despedida que eu recuso.

Um abraço só com a emoção de o rever porque o corpo já não consentia a força dos braços. No seu conforto fisico, devidamente sentado, em boa verdade a capa de uma extraordinária paz de alma, a tranquila espera da partida para uma vida convictamente feita de luz e olhares de cuidado com os que ainda ficavam... Uma lição.

Todas as desculpas que pedi, asseguradas desnecessárias. E o Tempo remexido: a minha primeira intervenção forense, a sua consideração entregue à minha responsabilidade; correrias durienses, histórias de assombrações e fantasmas nocturnos, perdizes aos bandos, os achigãs e as alheiras do Pinhão, Porca de Murça à mesa, tinto. E três décadas de empenho e desilusões pela nossa Bandeira dos nossos Avós.

E muito ainda. Tudo o que recebi em troca do pouco que dei e por isso continuarei a acrescentar. Lutando contra as areias do Tempo até à descoberta da caneta ideal e das palavras exactas.

Sei não pretende eu acrescente mais. Nem vale a pena, bastariam duas letras para escrever um nome enorme, sem fim e agora sem ausência.

 

 

 

"Para quem goste de perdiz estufada"

João-Afonso Machado, 12.11.15

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A bem dizer, a gente hoje gasta mais dinheiro com a saúde dos nossos animais do que com a nossa. Penso às vezes, para veterinário não serviria; mas para psicólogo da bicheza… Dos cães (in casu, das cadelas), do gato, do canário…

E eles necessitam, realmente. Sinto-o assim numa das minhas, portadora de monumental barriga preste a esvaziar-se, das duas uma – ou de cachorros alentadíssimos ou de família numerosa, contrariando todas as regras do prudente planeamento, nem quero imaginar quantas bocas a pedir alimento! Este o ponto em que poderíamos derivar a conversa para os benefícios fiscais de que tanta gente fala já: isenção de IVA, deduções ao IRS… Enfim, políticas sociais. Mas não valerá a pena, cães são cães, não são «matérias fracturantes».

Para os proprietários – há que rever esta nomenclatura; proprietários? O esclavagismo já lá vai… - para, mais precisamente, os acompanhantes destes amigos inseparáveis, nos seus frequentes passeios pela Devesa, aqui fica a indicação do signatário, o maior Karamba da Zoologia. Especialista em beagles e labradores, fulminando todos e quaisquer mal-olhados.

Entretanto, compõe-se a minha trupe de perdigueiros portugueses devidamente inscritos no LOP e com provas dadas em codornizes, galinholas, perdizes… e até faisões! À boa e antiga maneira das estirpes que os caçadores mantinham para as suas lides e obséquio dos parceiros. Muito como os de Fradelos na minha infância, sempre atentos às suas matilhas de podengos, aos seus galgos, a alegria que eram aquelas batidas às raposas! Ou as aflições volta e meia vividas, a função interrompida, aqui d’el-rei por um veterinário, não havia então veterinários além do Dr. Anacleto Pinguinha, e, já idoso, pesado, cegueta, o Sr. Raposo espetou dois zagalotes no pescoço do Gris, a galgo dilecto do Sr. Moreira. A caçada não foi além e ainda demoraria um pouco a chegar aos meus clandestinos quinze anos quando, munido de uma calibre 16 do meu bisavô, principiei também nessa «adrenalina» das raposas, sem que alguma, dia algum, se atravessasse diante de mim. Salvo quando já tinha idade e juízo para as apontar apenas com máquina fotográfica.

Ainda haverá caça em Famalicão depois destas décadas de ignorância e demagogia? Tenho algumas dúvidas. E a maior pena… O Tempo tudo mudou. No inverno transacto estive em casa do Sr. Moreira (que Deus tem há muito) mas a sua descendência  deixou-se disso, dos galgos e dos podengos e das raposas. E a restante Fradelos? Ainda averiguarei.

De modo que estamos sobretudo em cães de companhia – com toda a «legitimidade» (a palavra da moda este Outono…) – mais do que em companheiros de caça, estamos em quadrúpedes e fieis amigos, animais da família. Aliás, como já referi, de uma família tendencialmente «macro», eu não sei para onde me virar, tal o advento deste simulacro de netos. Os filhos da minha Tareja.

Não há como não perceber, o recado fica dado.

E o mais certo é quando estas linhas vierem a público a ninhada tenha já arribado à luz do dia. Depois virão as semanas, os meses, a escolha do que fica e do que parte, que se dane a modéstia mas ninguém encontrará em Famalicão perdigueiros como os desta casta. Atenção, pois, ao Parque da Devesa, a nossa Fátima das aparições caninas, lá para o início do próximo ano.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 12.NOV.2015)

 

 

"Palavra dada - palavra honrada"

João-Afonso Machado, 12.11.15

Consumada a "habilidade" de António Costa, fica para a História o nada político no horizonte e um «cenário macroeconómico» absolutamente vazio (esvaziado...), conforme bem resulta da entrevista de Mário Centeno, ontem na RTP3.

Um nada político no horizonte pela razão chã de os acordos com o PCP e o BE se resumirem a uma união de votos contra o programa do Governo de Passos & Portas, mais os conhecidos pós para, em troca, aumentar a despesa e reduzir a receita públicas. Um «cenário macroeconómico» absolutamente vazio (esvaziado...) porque o celebrado estudo de Centeno se alicerça numa hipotética confiança (dos investidores e dos cidadão em geral) que Costa destruiu no seu trepar ao galarim.
Revelou-se um tiranete. Amoral. Ouviu de tudo nos debates, e - sobretudo - a excelente intervenção final de Luis Montenegro onde, parágrafo sim, parágrafo não, lhe chamou aldrabão. Nem pestanejou - ou envergonhado ou 1º Ministro, optara já pelo cargo.
E assim «voltada a página» do assalto ao poder, esperemos Cavaco Silva seja breve a confirmá-lo. Porque a discussão do Orçamento de Estado para 2016 se afigura interessantissima e duvidosa a sua aprovação. Urge lavar a televisão dos debates políticos a que não resistimos ouvir, com o inerente prejuízo para os livros e os bons westerns do serão, e não haverá meio mais rápido de nos vermos definitivamente livres de Costa. Com a CGTP a vaiá-lo também.
 
 

"Tango"

João-Afonso Machado, 09.11.15

LOVE IS IN THE AIR.JPGComo se não chovesse

não fosse rua ou realidade

 

(olhares molhados

corações encostados)

 

e houvesse credo   eternidade

o compasso um-dois

(um-contemplado   dois-apaixonado)

um-dois vezes quatro 

funda cidade

(sete envergonhado   oito-apunhalado)

 

jeito devasso

som sem tecto

movimento inteiro

ângulo recto   perna esquecida

 

(um-dois vezes quatro

para toda a vida)

 

volta atrás   demora o passo

acordes no ar   humidade remida

(um-dois vezes quatro)

praça rendida   instante fugaz

abraço sem idade   mãozita audaz

um-desejado   dois-apertado   três-pecado

quatro-loucura

vezes alma pura

 

e o corpo dançando

a música a esmorecer  o braço agitando

o amor que lhe vai

a morrer   a morrer

num último ai…