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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Baiona fora dos postais

João-Afonso Machado, 22.09.15

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Procuro, velho amigo, as ruas do teu exílio de há tantos anos. Como se tornasse a um silêncio que te soava apenas a ausência, e por isso a série imensa de postais teus ainda guardados no sotão. É uma caixa de sapatos inteira contando o cais, o regresso das traineiras, as tardes todas de espera do entardecer, o momento decerto de algum sentido da solidão.

Assim me encontrei na multidão que aposto não enfrentavas. Numa corrida de imagens onde jamais conseguiria igualar, velho amigo, o outro lado das tuas letras de vontade de regresso. Desculpa a incompreensão, a minha ligeireza ante os teus males vagabundos. Mas esses retratos não são meus e parece todas as traineiras foram embora, a vinda do pescado também, mesmo as gaivotas nem se dá por elas. Uma tremenda desilusão de tardes sem sentimentos chamada marina.

Fico-me apenas pelos teus postais, velho amigo. Pelos teus filosofados garatujos. E faço minhas as tuas dores de exilado, tão longe me encontro também do lugar onde devia estar no Tempo. É isso, cheguei quarenta anos atrasado. Sem sequer poder ir, calles fora, até um petisco qualquer, desses que, contavas nos postais, te consolavam então.

 

 

 

Bandeirantes do jamais

João-Afonso Machado, 21.09.15

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Com alguma frequência, lêem-se e ouvem-se por aí apreciações façanhudas sobre as raízes históricas, a duração das nossas atribulações, o infernal futuro que nos aguarda se não regressarmos a um passado aliás muito mal interpretado. São apreciações em que a invocação do Maligno é sobejamente utilizada na avaliação do "estado da Nação". São, afinal, as apreciações dos tremendos "nacionalismos".

E neles impera uma rigidez de conceitos que se pretendem os paladinos da verdadeira liberdade - uma liberdade feita de heróicos sacrifícios pela Pátria e pelas suas antigas glórias. Com imensas louvaminhas às tradições, às hierarquias e a usual postura: quem não é como nós é contra nós.

É o mito, a retórica, o populismo, a subversão da História e toda a agressividade à flor da pele, logo que ao segundo argumento esbarram com a impossibilidade de responder. É a intransigência, o dogmatismo e a auto-legitimação para o castigo da excomunhão - da classe política em geral, e de outras figuras de segundo plano - o Papa, o Rei - em particular.

Assim tais patriotas se vão excluindo uns aos outros, sentados à epopeia dos seus computadores, brandindo espadas de cruzados e imaginando novos cismas, novas dinastias. Recuados aos tempos da hecatombe dos comunistas. Incapazes, em suma, de entenderem a essencialidade da liberdade individual e a importância das entidades de referência por eles amesquinhadas.

Tudo exactamente ao contrário do sentido da rotação da nossa vida. Danificando letalmente o porvir.

 

 

A Senhora-de-cor-de-rosa está em Baiona

João-Afonso Machado, 19.09.15

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Encontrámo-nos, entre a distracção e o exílio. Distracção minha, porque sabe sempre bem uma saltada à Galiza, aos seus cenários a preceito para a fotografia; exílio dela, da Senhora-de-cor-de-rosa, apavorada com os mil milhões que pensa agora o Costa lhe vai gamar. É que não os tem mesmo, jurou-me espavorida em Baiona.

Tranquilizei-a. Os mil milhões serão criteriosamente distribuidos, com um sinal menos à frente, por todos os pensionistas. Ainda não sabemos com exactidão como, mas a seu tempo se verá.

Foi um alívio evidentíssimo para a Senhora-de-cor-de-rosa que, notei, cedeu um pouco à comoção e lacrimejou enquanto, à despedida, eu lhe beijava respeitosamente a mão.

 

 

Então que foi isso "Sportém"?

João-Afonso Machado, 18.09.15

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Foi tudo uma confusão. Um bezerro de ouro deslocado numa bíblia sem páginas porque na verdadeira o Jesus dos milagres não é este. Este - o perdido em bulhas com os vizinhos do outro lado da rua e, ainda por cima, elevado ao estrelato incandescendo a Amadora.

Enfim, este, o Jesus das invenções, um lampejo de genial descobridor de talentos, e um "onze" posto em campo com pretensiosismo e finesse de barbeiro. O resultado: uma derrota estrondosa em Alvalade ante um Lokomotiv que lá terá imaginado a carvão.

Ninguém (doentes de clubite à parte) gosta que uma equipa portuguesa perca. Ainda por cima parece que agora se perde dinheiro também. E ele faz muita falta. A ser verdade que André Villas-Boas está de regresso a Portugal, não há Jesus, Vitória ou Lopetegui seguros nos seus altares. Desde que não escasseiem, justamente, os milhõezinhos da praxe.

 

 

"No finar da época"

João-Afonso Machado, 17.09.15

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São já os últimos vestígios do Verão. Mesmo porque escasseia o vagar para pensar nele, a idade tem dessas fatalidades, a distância do tempo em que o Verão se sorvia até ao Outono.

A praia, Vila do Conde, era então uma estadia bastante mais demorada. Se Agosto era o mês da folia, Setembro agradecia-lhe a calmia dos areais e a própria roda de amigos se esvaziava, deixando apenas uma dúzia dos mais renitentes. Os que podiam, os que conheciam os magníficos dias de sol ainda por gozar antes da despedida geral. Esses dias inesquecíveis em que o mar se fazia um lago, a nortada sumia e toda a comunidade veraneante permanecia em êxtase na areia até ao poente. E se descobriam os verdadeiros encantos desta ou daquela e sobrevinham as paixões em serões infindos de cartas e música de LP’s e singles transformados em hinos incansáveis e imortais.

Quando então as coisas corriam mal – isto é, a paixão se desengonçava – fixava-se terminantemente o momento da partida. De resto, seria já na agonia, as calças de bombazina e as botas militares faziam parte da indumentária, o resto cabia na mochila às costas, chamavam-nos as vindimas, o corte do milho, os parceiros entretanto refugiados nas quintas dos seus. A bicicleta parada à porta do Zé Diogo – Vens? – E ele, prontamente, - Vou, espera aí, tenho só de buscar umas coisas, um saco…

E partíamos estrada fora nas nossas recuadas “pasteleiras” sem mudanças mas com guiador “de cross”, rumo a Famalicão. Uma hora a pedalar, um percurso já aliviado do perigo dos emigrantes desenfreados nas suas “vuátures”.

Era depois até ao início das aulas, na sequência da revolução abrilina sempre incerto, sempre adiado. E, além de uma intensa actividade campesina, muito no acastanhar de uns dias notoriamente mais curtos, tínhamos também Famalicão. A Vila.

Havia, incomparavelmente,  menos gente, menos urbe. Famalicão não ia além do que hoje se costuma chamar “o centro”. Sem quaisquer elevações prediais de realce. Movimentando-se com imenso vagar, sempre laboriosamente, com pendular regularidade. Como se as férias fossem, continuassem a ser, a notícia remota, curiosa e exótica de uma realidade distante. O eco de um certo ruído mais a oeste. Bebíamos a nossa cervejinha pelo fim da tarde na mais santa paz de um cafezinho qualquer.

Muito mudou. Famalicão faz actualmente as suas malas balneares mas oferece também, a si mesma, um Verão peculiar, cheio de diversidade e animação. Debanda em turismo tanto quanto recebe os seus hóspedes. Banha-se nas horas de calor, sai após o jantar para um pouco de espectáculo, um pedaço de ar fresco e deambulante. Diverte-se e agita-se, descontrai-se. Creio que sente mais estas despedidas das praias, o reatar do usual curso da vida. O quotidiano, em suma. Mas não sem que antes lance os últimos foguetes: na feira de S. Miguel que está quase a estourar aí.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 17.SET.2015).

 

 

Nem ilusões nem grandes convicções

João-Afonso Machado, 16.09.15

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O país de carne e osso é outra realidade muito além dos lugares estratégicos visitados em campanha eleitoral. É, por exemplo, as pequenas comunidades piscatórias que vivem da arte xávega.

Sabem os senhores políticos o que é a arte xávega?

Pois não, lamentavelmente. Em resumo, é uma forma de pesca à rede artesanal, o pouco que resta dela, com as dificuldades que se adivinham e agravam pela regulamentação metediça da UE. Mormente a que obriga a devolver ao mar o peixe de dimensões inferiores às tabeladas.

A cegueira total: desde logo, o peixito não sobrevive ao aperto e arrasto das redes; depois, nunca se desperdiça, é muitas vezes mais apreciado e melhor vendido que o graúdo.

Os pescadores portugueses dirigiram já a Bruxelas um pedido de regime de excepção. As entidades oficiais encolhem os ombros e dizem que não podem alterar unilateralmente os regulamentos comunitários. Criaram, entretanto um «grupo de estudo» para elaborar um «relatório» a apresentar a uma «comissão» que discutirá o assunto nas «instâncias europeias».

Traduzindo: há muita gente a ganhar bom dinheiro à custa da pobreza dos pescadores enquanto a caravana eleitoral prossegue o seu itinerário sem distinção de cor, sexo ou ideologia.

 

 

 

Não tenhamos ilusões

João-Afonso Machado, 16.09.15

Foi provavelmente o mais esclarecedor debate. Aquele em que, de forma insuspeita, todos os crédulos se desenganaram quanto aos intentos socialistas sobre as pensões de reforma. O incessante - insuportável! - matraquear de Catarina Martins não deu qualquer hipótese a António Costa. Quer dizer: a mentira foi criteriosamente desmontada.

Mas, arrufos à parte, o recado final não deixou margem para dúvidas. O BE está pronto para entendimentos duradouros com o PS após as eleições. Ambos namoram já e, no ponto em que as coisas estão, o que valem 1.660 milhões de euros? - O preço do anel de noivado, claro. Oferecem os pensionistas.

É o que nos espera a partir de 5 de Outubro. Uma data, de resto, de grande simbolismo no início do fim da III República.

 

 

Post-scriptum

João-Afonso Machado, 15.09.15

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Só para lembrar o silêncio dos dias indiferenciados, sem manhãs nem tardes, nada mais do que o cinzento. Confirma-o a varanda, a recusa absoluta de paisagem. E na sala pequena a demanda de um papel, uma pista, um tema. Já com trejeitos do frio prometido enquanto as equações não se resolvem. (Cansa ler a letra dos outros e nem sempre a nossa desliza de feição). Ainda assim uma tarde de repouso, do lado oposto ao de lá de fora que hoje é só solidão.

 

 

Costa, o atiradiço

João-Afonso Machado, 14.09.15

Do capítulo de hoje:

Após o rapa-pé a Manuela Ferreira Leite (Manela), António Costa (Tony) convida esta noite Catarina Martins (Katy) para um café, e confessa-lhe as afinidades - a atracção -  que sente por ela.

Tudo termina numa conversa vaga, numa promissora hipótese de um futuro breve entre ambos. Quiçá... um romântico cruzeiro às ilhas gregas.

Não perca!