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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Coisas que não devíamos ler (ou reler)

João-Afonso Machado, 02.06.15

Voltar às Memórias Políticas (1941-1975) de Freitas do Amaral - O Antigo Regime e a Revolução - é, vinte anos depois, uma delícia. Por uma série infinda de razões, desde logo a circunstância de 1941 ser o ano em que nasceu o menino Diogo, confirmando a célebre boutade de Aristóteles, um pouco mais antiga, - o homem é um animal político.

Pormenores à parte, Freitas - que considera a sua primeira «medalha no combate democrático» ter sido demitido «pelo Governo de Salazar», em 1962, do cargo de presidente da Assembleia Geral da Associação Académica da Faculdade de Direito (da Universidade de Lisboa) - estriba a sua formação doutrinária no «catolicismo social» da sua Família, na sua «vivência diária» com a democracia britânica e na aprendizagem teórica com Raymond Aron e prática com De Gaulle e Giscard d'Estang. Aos 17 anos, ouvindo um orador maldizer a Rainha no Speacker's Corner, apupado pela multidão e defendido (no seu direito de expressão de ideias) pela polícia, terá concluido, assim jovem, quão errada era a II República monolítica, e vantajoso o pluralismo - «a democracia pluralista em que a esquerda e a direita democráticas se alternassem no Poder» - como meio de «combater a ameaça comunista».

Agora, em entrevista ao Boletim da Ordem dos Advogados, lá foi esclarecendo que, «liberal» por alturas do 25/A, era-o com certeza; quanto à democracia, «tinha apreensões» dado temer «fortes partidos comunistas e fascistas»...

Enquanto não sai uma nova edição, revista e actualizada (1975-2015), das suas Memórias, sempre Freitas do Amaral permitirá, democraticamente, que opine: esta segunda versão será mais conforme à realidade. Freitas cresceu políticamente à sombra de Marcelo Caetano - cujos pavores e convicções cautelares seguia -  e a nova República apanhou-o na curva distraído, esbarraram um e outra. Salvou-o Adelino Amaro da Costa; perdeu-o a sua ambição de estadista, para o que não tem qualquer vocação. Assim se deitou fora um administrativista com todas as propriedades de um mestre excelente no mais maçador ramo do Direito.