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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Prontos-a-vestir"

João-Afonso Machado, 12.03.15

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O Café Santo António viveu e morreu onde está agora a Sapataria Varela. Era onde o Cabecinha dava os mais formidáveis e audaciosos golpes, saindo pelas traseiras, depois de uma tarde toda de bilhar, sem pagar. E o Foto Humberto, silencioso e misterioso, lá no cimo das escadarias, sempre o conheci no mesmo sítio. Mas da Urca já não sei o que diga. Nada recordo senão aquelas montras de uma espantosa modernidade para os anos da minha juventude. E de muita roupa de marca, era um andar apressado à passagem, não poder dói, nem valia a pena espreitar. Muito mais tarde sim, o Pereira atenciosíssimo, fomos colegas no liceu, ele fumava SG Gigante e invariavelmente não negava um cigarro a este “crava” credenciado. Do outro lado da Rua Adriano Pinto Basto ficava a Urca das crianças e, a preços módicos, eu vestia os meus filhos com calças Lee e magníficos pull-overs nesse bocadito de loja também encerrada. Tal qual a Urca-mãe.

Reparei nisso um desses dias, andando por ali. As montras, paralelipipédicas, fundas, totalmente esvaziadas, o interior escuro, amortalhado numa grade metálica posta à entrada. Finou-se, pois, o meu primeiro contacto – como disse, muito cerimonioso e reverencial – com os prontos-a-vestir e o mundo da moda. E num instante reentrei em espírito na Urca, o Pereira muito engravatado, esfregando as mãos, a receber-me, a subir as escadas para a secção masculina, a remexer cabides. E eu de olho nos saldos, ele a buscar calças de bombazina das genuínas, dessas que só temporariamente os gostos põem ko, mas depressa reanimam.

Fique, então, o Pereira, as boas marcas e escolhas, o excelente tweed dos seus casacos – apreciava sobretudo a expressão: «este veste muito bem»… - no epitáfio da Urca. E não esqueça o historial do comércio em Famalicão tão marcante estabelecimento, tão prestimosa gente.

Enquanto isso…

Nas minhas repetidas deambulações pela Vila acerto o olhar, um desses dias, em plena Santo António, num pequeno, senão tímido, pronto-a-vestir, uma lojinha para mim desconhecida, jamais lá entrara, talvez nunca reparasse, durante 54 anos de existência. Mesmo sendo certo – averiguei depois – ela andar pelos 40 de bem servir, era tempo demais sem que as apresentações fossem feitas. Avancei dentro. E logo detectei um vasto filão das minhas dilectas Lois. As velhas Lois de sempre, o modelo clássico, duradouras, no corte da minha geração, infelizmente apenas não de cinta moldável às vicissitudes da idade… O resto foi o bastante para escolher a cor, provar e ajeitar as bainhas… e buscá-las o dia seguinte.

Feita a compra, um novo satélite se descobriu no meu firmamento, orbitando no céu famalicense – a Lunando. Uma firma vinda lá dos confins do espaço e dos tempos perdidos no Tempo, os dos anagramas utilizados nas denominações sociais. Mas perseverando num magnetismo tremendo, em que a razão é a arma derradeira, ao gritar-nos à vontade que o armário já está repleto de blusões e a vida de dificuldades.

Seja como for, o Universo, como os físicos descobriram, expande-se constante e aceleradamente. Não é improvável, por isso, de Santo Adrião a Calendário, ou a Antas, as descobertas prossigam. Desde que, há milénios, comprei qualquer coisita no A. de Sousa Lopes ou no Mesquita “dos tabacos”, por exemplo.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 12.MAR.2015)