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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 15.02.15

HAVANEZA-BRASILEIRA.jpg

Lisboa continua a mesma, sempre em altissima voltagem de gente e acontecimentos. E eu também, o azarado do costume, um esquecido pertinaz. Ao ponto de fazer viagem sem me ocorrer estarmos no mesmo hemisfério, logo ser inverno em Lisboa. Por sinal frigidíssimo, este ano.

E o frio ataca-me fatalmente os pés. Também com Aquiles era assim. Na infernal espera do táxi, à saída da estação, já os pés se me gelavam.  Optei por uma dolorosa marcha forçada até ao Rossio e depois pela Rua do Carmo, onde me lembrei da velha Sapataria Oliveira, que calçava «Lisboa inteira». Ainda existiria, com estes IVA's todos? E ainda me venderia, baratinho, umas botas, umas palmilhas, algo com que proteger os tornozelos, os dedos já rígidos?

Só por isso desviei no Chiado para a Calçada do Combro. Mas ao passar a igreja do Loreto estranhei os populares, um magotezinho, no Largo de Camões, é sempre tão desagradável quando alguém se sente indisposto, a morbidez dos curiosos em volta sem o deixar respirar... E não é que?... Quão pequena a Capital do Império, afinal!!! Ei-la, a minha amiga, umas dezenas de metros à frente, sempre loira, sempre bela, sempre macia, mas sempre arisca. Com um cartaz qualquer entre as mãos. Ah bom!, é carnaval, pensei, como se acordasse então.

E corri para os seus braços. Corri... é modo de dizer; e para os seus braços, de sonhar. Abordei-a, em suma. Cumprimentámo-nos comedidamente, pese embora a sua euforia.

Que estava ali numa manifestação de solidariedade para com o heróico povo grego. Que a Troika tinha os dias contados, agora era dela o medo! E agitava, frenética, o seu cartaz com uns recortes toscos das fotografias de Tsipras e Varoufakis.

Senti curisidade. E, disposto a beber qualquer coisa quente na Brasileira, perguntei a que horas seria a manifestação.

Quase levei com os governantes gregos pela cabeça abaixo. Eu era sempre o mesmo, um céptico, um cínico, um egocêntrico! Um saloio.

- Não sou, não senhora, sou minhoto.

Mas ela não quis saber. Em seu redor, cinquenta, sessenta almas com um aspecto excessivamente sindicalista ou ataviadamente desmazelado. O que faria a minha amiga ali, meu Deus!, entre tanta fealdade?

Assegurou-me à pressa que a esmagadora maioria dos helenos (ela às vezes gosta de falar caro) estava com Tsipras e o nosso PR, o nosso 1º, não podiam continuar a dar palpites, a interferir, invejosos, sabujos...

Achei melhor não opinar. De resto, em nada me comprometia politicamente ficando ali, junto dela, pena até (pensei baixinho, envergonhado), fosse uma multidão compacta e mais chegadinho ficaria, alguém invectivou a Sra. Merkel e eu preparava-me para bater palmas e gritar também - uuuuuuuuh, eu a ganhar folego para a convidar para jantar, e ela, entre dois ápodos tremendos aos neo-liberais:

- O Varoufakis é um pão, não acha?

Não achei coisa alguma. Minhoto, sim, parolo também, mas o resto não. Despedi-me num repente e debandei para o antigo poiso de Pessoa. Só para comer uma torrada.