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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Faisões e ideias semelhantes"

João-Afonso Machado, 12.02.15

FAISÕES AZAMBUJA.JPG

A caça teve, em tempos, fértil terreno nestas bandas. Os jornais noticiavam as proezas dos mais renomados caçadores e era um coleccionar sempre crescente de rolas, pombos bravos, coelhos, perdizes, lebres… Será que os famalicenses conseguem ainda imaginar uma lebre correndo à desfilada em esforço todo-terreno? Sem ser atropelada pelo pelotão? Ou sem se esbarrar contra um edifício qualquer? Pois não era assim antes. Havia-as, assim como urgia caçar raposas, impedir a proliferação de tão bonitos predadores das espécies selvagens e dos galinheiros.

De modo que o desporto venatório era benquisto, discutido em tertúlias e ao balcão dos armeiros e associado à manutenção de matilhas de podengos (que espectáculo vê-los a entrar nos silvados e os donos a acirrá-los – ibai!, ibai!, é coelho!, ubai!, ubai!...!), algumas, famosas, de lindíssimos galgos de Fradelos e Gondifelos, e do treinamento e natural orgulho nos perdigueiros, para as mais complexas andanças às perdizes ou às galinholas.

Caçava-se a época toda. Havia caça. Saía-se de manhãzinha cedo, a pé, por toda a dominical invernia, vão lá tantos anos que já prescreveu a punibilidade da infracção: era noite ainda, um frio quase polar, e de volta da lareira roía-se um naco de broa e matava-se o bicho, com uma boa golada de bagaço para a tosse; depois o tractor, aos pinotes nos caminhos de outrora, esburacados e lamacentos, levava-nos a cumprir o preceito religioso e, despontado o dia, as mãos a enregelar no ferro das armas, a volta aos coelhos ou o saltarico entre oliveiras, aos tordos, tirava-nos da algidez e do torpor. Tudo isto na juventude dos dezasseis, dezassete anos, enquanto a responsabilidade paternal dormia a sono solto.

E às quintas-feiras era de tarde. Vinha o Luís Torres, de cartucheira à cinta e espingarda no braço, num à-vontade de militar desfilando em pleno Largo Tinoco de Sousa, e o Miguel Lopes com a sua Solex e uma esplêndida calibre 20, e partíamos, a tempo de qualquer coisa, um coelho, um tordo, um gaio que fosse. Tudo menos as aulas do liceu.

Famalicão deu um ror de voltas, entretanto. Cortou cerce muitas bouças, muitos olivais. Citadinizou-se em cima desses antigos bocados de natureza. E substituiu a bicharada bravia pela gulodice dos gatos, esses malandros. A caça transformou-se no fortuito encontro com algum coelho mais distraído, uma ou outra rola transviada. O mais são recordações e, creio, algum inconformismo de quem delas padece.

Sobram, porém, alguns terrenos ainda. De considerável extensão, aliás. Quase um rectangulozinho de Alentejo em Famalicão. Mesmo a calhar para os perdigueiros se exercitarem e proporcionarem uns belos tiros às perdizes. Que bem podiam lá ser postas… Acresce, ou muito me engano ou narcejas e galinholas também esvoaçarão por ali. Caça de categoria, chamariz de gente de fora, se os famalicenses não a quiserem para si. Qualidade.

É um projecto. Requer algum engenho, bastante disciplina e o entusiasmo e dedicação de quenquer. No fim, talvez os nossos caçadores não necessitem debandar lugares longínquos, inóspitos, suportando custos elevados e desentusiasmantes. Ainda há espaço em Famalicão, como só talvez em escassíssimas zonas do distrito de Braga. Está-nos ao alcance das mãos.

Enquanto tal, lá vou marchando para uns faisões na Azambuja. Uma farra! Um fartote. Que bem podia ser em terras nossas, insisto.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 12.FEV.2015)