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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Das "Memórias de um Átomo"

João-Afonso Machado, 11.02.15

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«MAMMA MIA!

Ano de 2015 d. C. ressuscitado outra vez (r. o. v.). A gloriosa Helade é o que todos querem. Cá, onde inexistem carenciados, abundam os alimentos, a energia eléctrica, os cuidados de saúde, e o salário mínimo não cessa de crescer. Os nossos antepassados - os meus e os de Meryl - imigraram clandestinamente, mas nada nos custou obter a cidadania helénica. E hoje, nos arrabaldes de Heraclion, criamos cabras, caçamos os cabrões dos coelhos, essa maldita praga biblica, e tratamos do olival. Vivemos da agricultura biológica, em suma, a que somamos mais uns biscatezitos. O mercado é quinzenal, quiçá um pouco longe, mas um Mercedes de luxo, das eras que antecederam Alexis Nosso Zeus, continua a dar a sua ajuda.

Sempre jovem, sempre lânguida, sempre amante, quase sempre de um tenente francês - estas coisas no Olimpo são perfeitamente aceitáveis - Meryl, adorável, venera este acima de todos os deuses e acende-lhe uma velinha de cada vez que fica para trás mais uma prestação do apartamento sem hipotecas e com vista para o Mediterrâneo. Mamma mia! Here I go again -  canta ela todos os meses dificeis. E lá vamos indo, graças a Alexis Nosso Zeus, aos funcionários públicos readmitidos e à feira franca do S. Miguel da Acrópole de Atenas, onde todos os gregos sacrificam e ofertam impostos.

Vivemos uma vida simples. Todos vivem, mesmo Adolf, asseguram os gregos. Só Ângela não. Sequer ressuscitou também. É assim depois dessa longa batalha judicial em que o magnífico Varoufakis e o seu fiel Marinho Pinto executaram Berlim para pagamento de 162 mil milhões em moeda antiga, mais os juros à taxa legal, uma pipa de massa sem fundo. A Hélade, para sempre governada pelo Partido Republicano Democrático (Cyriza), deste modo se tornou a primeira potência mundial do bem-estar.

(Meryl é sublime nas suas azeitonas e nos seus queijos. Pela minha parte, um pouco farto de nectar e hidromel, decidi importar vinhos tintos lusitanos. Resquícios dos hábitos dos meus avoengos, talvez. Mas custa-me ver aquela pobre gente, o seu triste olhar azarado de quem não foi destruido pelas guerras proto-neo-liberais...)»

 

(Com a aquiescência do meu Amigo J. da Ega, a quem mui grato sou.)