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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Correio do Minho

João-Afonso Machado, 12.09.14

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«Querida Madrinha:

Escrevo muito à pressa, a avisá-la somente, antes de ouvir a notícia e apanhar um susto pregado pela telefonia. Eles vão criar um novo partido republicano-democrático. Mas a querida Madrinha não se alarme, pedi algumas informações e não será por aí que a Formiga Branca retorna às suas malvadezas. Parece apenas tratar-se disto: um tal Marinho Pinto, homem de falares fáceis e muito sonoros, ganhou umas eleições e um bilhete para a Europa. Diz que está muito bem, pago regiamente. Mas agora convenceu-se que chegaria a Presidente da República, imagine! Vai daí anda a juntar gente para formar esse partido e concorrer a deputado, que será o jeito de se fazer ouvir um pouco mais antes de dar o salto. Que o homem é maçon, não me ficam grandes dúvidas. Mas anda desgarrado, os outros não acharam graça nenhuma, sabe como é, aquilo é tudo na base de obediências. Ainda acaba como o António Granjo, coitado (eles são parecidos, assim pesadões), espancado e fuzilado pelos carbonários. Apanhado à saida da Assembleia deles e enfiado dentro de alguma camioneta fantasma! A República tem coisas assim, a cada passo, e por isso acredito melhores dias virão.

Aguardemos, pois, e confiemos, querida Madrinha, é o que recomenda este seu afilhado que muito a estima e lhe quer bem

JAM»

 

 

"Dar milho aos pombos"

João-Afonso Machado, 11.09.14

Em finais da década de 50 da transacta centúria, um inspirado colunista do Estrela da Manhã dava-se conta da garotada em manobras no então Parque Marechal Carmona – hoje Parque 1º de Maio – e escrevia assim: «de fisgas em riste a espalhar criminosas rajadas de pedregulho contra a sua vasta e canora povoação alada que ali encontra um esplêndido ambiente para a construção dos ninhos e o ensaio dos primeiros panejamentos das asitas inexperientes dos pimpalhões e dos chincos» .

É claro, improvavelmente nos depararemos agora com o rapazio em linha disparando rajadas de pedregulhos à fisgada, seja lá a que for e menos ainda aos animais. Mudou a mentalidade das pessoas, tornaram-se mais actuantes – neste capítulo – as forças da ordem, encarregadas de zelar pela segurança pública e pela harmonia da nossa convivência.

Porque, do mesmo passo, foram crescendo, ampliara-se imensamente, as áreas urbanas. E é pensando em outras cidades, tão maiores do que Famalicão, que surge a interrogação – onde param os nossos pombos?

Eu sei, são usualmente considerados uma praga. Sujam tudo, entopem os caleiros dos telhados, não cessam de se multiplicar. Há quem diga, os seus excrementos estragam a pintura dos automóveis… Incomodam, em suma. Mas, ainda assim, é neles que pensam os idosos quando ajuntam as derradeiras migalhas de pão na mesa e se dirigem para um qualquer jardim público das suas tardes sempre iguais.

E quem diz pombos, diz gaivotas. Já frequentemente avistadas no espaço aéreo famalicense. É tempo de toda essa passarada aterrar junto de nós e, arrulhando (recordo agora as rolas turcas, também…) ou piando, chegar-se às mãos do cidadão.

Aliás, tal é apanágio dos lugares e das gentes mais civilizadas. Não brincam os esquilos e aceitam as avelãs que lhes oferecemos no Hyde Park? E, por toda a parte, em Roma, em Paris, em Bergen (passeei lá recentemente, à descoberta dos fiords), não deambulam nos relvados enormes gralhas cinzentas – um pouco mais de tamanho e negrura eram corvos – indiferentes ao andar ligeirinho dos transeuntes?

A fisga é já um costume ancestral. Todavia, a temível vontade de correr atrás, espantar a peça – apanhá-la!... – talvez ainda não. Ao que acresce alguma dose de medo atávico… das cobras, dos sapos, das salamandras…

Pois são répteis e anfíbios habitando muito perto de nós. Graças a Deus, nem tudo se reduz a motores e poluição. No Vinhal, na Devesa… Além dos ouriços-cacheiros, das ratazanas de água, dos coelhos e das garças, provavelmente de alguma raposa… E, tal como no Tamisa, em Londres, o nosso Pelhe também regurgita já de peixe.

A questão está em saber preservar estas espécies, afinal aclimatáveis à nossa, a humana, das menos sociáveis. Mas as criancinhas – inicialmente somos inofensivos… - gostam do passeio no parque, o carrinho cercado de aves, o peixe vermelho no lago, e, quando assim for, Famalicão crescerá no mais importante – em ambiência e em modernidade. Em qualidade de vida, resumindo.

 

(Da crónica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 11.SET.2014)

 

 

 

O primeiro debate

João-Afonso Machado, 10.09.14

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Disse aqui o José Mendonça da Cruz, e a Imprensa confirma-o, generalizadamente, António José Seguro ganhou o debate a António Costa sobre a peculiar questão interna socialista. Parece que marcando os pontos decisivos logo no primeiro round, quando o esmurrou com contradições decisivas, aliás não dificeis de desencantar na costumeira discursata. Ora, como Costa não é um menino nestas andanças, e há-de ter procurado o mesmo em relação ao seu adversário, fica tudo dito. 

(É matéria em que não me pronuncio por opinião própria, dado à noite nunca ver filmes à Woody Allen...).

Tudo estaria menos mal se Seguro, no multipériplo que há meses faz no País, invariavelmente não insistisse em enaltecer o vigor «da República». A nossa, pobretana e venal. Assim a gente assusta-se. Talvez Guterres lhe pudesse explicar que é mais recomendável referir a velha Nação portuguesa. Eles são todos iguais, mas neste primeiro confronto, Seguro marcaria, apesar de tudo, mais pontos ainda.

Pontos a validar no futuro, é claro. Caso Seguro seja realmente um democrata.

 

 

Um príncipe iluminista

João-Afonso Machado, 08.09.14

Veio ao colo numa noite do princípio do Verão em que parecia chamar por toda a gente, debaixo de um carro estacionado na rua, e tinha fome.

Chegou e foi-se logo apropriando da casa inteira. Instalou-se na suite, em cama circular, um magnífico water-closed (destes mais modernos, com portinhola apenas), mesa e cadeiras, frigorífico recheado, uma parafernália de utilidades e janela com vista para o assombroso quintal do vizinho.

Os demais hóspedes por vezes queixam-se. Sobretudo quando irrompe na sala de convívio e, sem cumprimentar, inopinadamente, se senta ou estende onde lhe dá na real gana de um príncipe iluminista. Ao colo de uma senhora, por exemplo. Ou no quentinho de algum computador em funções. Ou brincando com as minhas velhas polainas de andar no monte.

Pio, o canário, - outra nobilíssima presença - perturba-se muito com o seu olhar gulosamente fixo e curioso. Com o seu mefistofélico abanar de cauda. E quando alguém, por fim, se atreve a chamá-lo à atenção para o embaraço da situação, já o Dr. Gato, em pezinhos de lá, sem ruído, cautelarmente se deslocou para outro qualquer salão.

E é então um coro de vozes por ele. Por este déspota feroz, egoísta, resmungão, de garras implacáveis e dentes como punhais assassinos (pobre Pio!...), sem o qual, na verdade, já não se passa. O que será, meu Deus, se algum dia S. Ex.cia vence o medo das alturas e decide voar da varanda do 1º andar no encalço de alguma princesa congénere?

 

 

"Liga dos Últimos"

João-Afonso Machado, 07.09.14

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Foi um jogo com muitos golos, à boa maneira dos campeonatos distritais.Um recorde, mesmo, segundo o cômputo das federações socialistas: a Académica da Costa venceu por 10 a 9 os Alegria e Juventude do Seguro. Mais um renhidíssimo derby local, portanto.

No final do prélio os treinadores de ambas as equipas, Tony e Tozé, disseram da sua ciência. O primeiro contentíssimo com o score, o segundo frisando bem o goal-average é-lhe favorável e a procissão ainda vai no adro.

É sempre assim no futebol, sobretudo entre os teams mais modestos, em que coachs e jogadores anseiam sempre voos mais altos.

Pese embora a acesa rivalidade posta no relvado, aquando do fecho desta edição não eram conhecidos desacatos entre adeptos e sócios da primeira ou da última hora.

 

 

A Reforma Judicial

João-Afonso Machado, 06.09.14

Que a Ministra da Justiça quer ficar na História, isso não oferece qualquer dúvida. Que o mundo judicial necessitava ser metido nos eixos, também não. A empreitada era de monta e, muito ao nosso jeito, as criticas vieram em avalanche, antes ainda de o bulldozer entrar em acção. A Dra. Paula Teixeira da Cruz tem o pequeno senão de ser dona de uma expressão antipática e pouco convincente. Vai daí o redobrar das vozes do coro...

Mas persiste a possibilidade de a sua equipa de trabalho não ser completamente tola nem suicida. O mapa judiciário talvez seja decifrável e o sistema informático nada impede o aperfeiçoem. 

O capítulo das secções especializadas, então, afigura-se de fundamental importância. Oxalá despolitizem os tribunais de Trabalho e humanizem os de Família e Menores.

Obviamente, nesta República semi-cega, edifícios enormes e de recente construção revelam-se agora sobredimensionados. O Estado terá de admitir a sua natural tontice e prodigalidade e melhor seria os confiasse às autarquias (em vez de começar a sonhar com hipotéticos museus de ética republicana). Quanto aos antigos, muitos deles embelezando os centros das nossas cidades e vilas comarcãs, rezemos para que o Estado (Social ou neo-liberal) não disparate como é tradição. E os entregue às Misericórdias, por exemplo.

No mais... A vida é assim, e o sumo dos litigios no foro é hoje completamente outro. Foi-se o encanto das velhas questões de águas ou demarcação de terras. Mais os concomitantes crimes de homicído à sacholada: a lavoura quase secou e na globalidade não há marcos delimitadores.

 

 

Setembro

João-Afonso Machado, 05.09.14

Chegam já antigas, como postais extraviados, as notícias do mar. Ou este ou aquele preferem a quietude de Setembro nas areias ora sossegadas e gabam o sol, a mansidão das águas só deles... Ainda assim, aceitemo-lo, o ínicio do ano novo está em marcha. O mundo retoma o seu ritmo normal, o regresso passeia-se nas ruas, nos campos, e aperalta-se para os festejos de sempre. Que me perdoem os limianos (estamos quase lá...) mas as Feiras Novas pecam imperdoavelmente de excesso de gente e estão à partida esgotados os lugares sentados. Como se fosse a Póvoa de Varzim, sempre atafulhada em banhos e labirintos indecifráveis de barracas.

Setembro é o mês dos arraiais e feiras. Do S. Miguel a receber o ano agrícola, tal como os professores e os alunos recebem o ano lectivo - porventura com idêntica resignação. Enquanto não, a concertina e o petisco. Setembro é o verdadeiro mês de mudança e talvez por isso semelha decorrer mais vagarosamente. Há um sol ameno e as vindimas e mais alguns parágrafos de escrita. Além de um remoto, ecoante, cheirinho a rabanadas perfilando-se já no horizonte.

 

 

Quatro anos depois

João-Afonso Machado, 03.09.14

Foi por uma tarde destas, vão lá quatro anos, rabisquei as primeiras letras para o Corta-Fitas, assim correspondendo ao simpático convite do João Távora. O Tempo não passa - voa, cavalga, zune. Quantos posts depois chegámos a hoje?

Ignoro se vim a prazo. Sei apenas que cheguei com vontade de escrever. O quê? - rigorosamente aquilo que me fosse na alma.

Desde logo, jamais esquecendo o meu único ideal político: a Restauração; nem, tão-pouco, tudo quanto vou captando do mundo que nos cerca, ora na minha terrinha, ora em passeios mais alargados a que, volta não volta, me abalanço. Designadamente quando viajo à nossa longínqua Capital, deliciosa fonte de inspiração.

A colaboração no Corta-Fitas, devo acrescentar, serviu essencialmente para me consciencializar da riqueza imensa da minha liberdade. Da qual espero nunca abrir mão. E, obviamente, aguçou alguma capacidade de improviso com o lápis. Mesmo porque a República que nos assiste tem muito de caricatural e algumas querelas entre monárquicos - infelizmente - também.

Essas ditas querelas serão ulteriormente objecto da minha atenção. Planos para um ano ora a iniciar-se...

De momento, o meu obrigado a quantos aqui vieram com ditos amáveis, encorajadores, e aos outros, os que optaram pelo bota-abaixo. Enquanto não denunciarem a péssima caligrafia ou a ainda pior gramática, cá nos entenderemos todos sempre afavelmente.

Obrigado, pois, aos leitores - estimadíssimos - do Corta-Fitas. E um abraço grande aos colegas da Equipa.

 

 

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