Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Dar milho aos pombos"

João-Afonso Machado, 11.09.14

Em finais da década de 50 da transacta centúria, um inspirado colunista do Estrela da Manhã dava-se conta da garotada em manobras no então Parque Marechal Carmona – hoje Parque 1º de Maio – e escrevia assim: «de fisgas em riste a espalhar criminosas rajadas de pedregulho contra a sua vasta e canora povoação alada que ali encontra um esplêndido ambiente para a construção dos ninhos e o ensaio dos primeiros panejamentos das asitas inexperientes dos pimpalhões e dos chincos» .

É claro, improvavelmente nos depararemos agora com o rapazio em linha disparando rajadas de pedregulhos à fisgada, seja lá a que for e menos ainda aos animais. Mudou a mentalidade das pessoas, tornaram-se mais actuantes – neste capítulo – as forças da ordem, encarregadas de zelar pela segurança pública e pela harmonia da nossa convivência.

Porque, do mesmo passo, foram crescendo, ampliara-se imensamente, as áreas urbanas. E é pensando em outras cidades, tão maiores do que Famalicão, que surge a interrogação – onde param os nossos pombos?

Eu sei, são usualmente considerados uma praga. Sujam tudo, entopem os caleiros dos telhados, não cessam de se multiplicar. Há quem diga, os seus excrementos estragam a pintura dos automóveis… Incomodam, em suma. Mas, ainda assim, é neles que pensam os idosos quando ajuntam as derradeiras migalhas de pão na mesa e se dirigem para um qualquer jardim público das suas tardes sempre iguais.

E quem diz pombos, diz gaivotas. Já frequentemente avistadas no espaço aéreo famalicense. É tempo de toda essa passarada aterrar junto de nós e, arrulhando (recordo agora as rolas turcas, também…) ou piando, chegar-se às mãos do cidadão.

Aliás, tal é apanágio dos lugares e das gentes mais civilizadas. Não brincam os esquilos e aceitam as avelãs que lhes oferecemos no Hyde Park? E, por toda a parte, em Roma, em Paris, em Bergen (passeei lá recentemente, à descoberta dos fiords), não deambulam nos relvados enormes gralhas cinzentas – um pouco mais de tamanho e negrura eram corvos – indiferentes ao andar ligeirinho dos transeuntes?

A fisga é já um costume ancestral. Todavia, a temível vontade de correr atrás, espantar a peça – apanhá-la!... – talvez ainda não. Ao que acresce alguma dose de medo atávico… das cobras, dos sapos, das salamandras…

Pois são répteis e anfíbios habitando muito perto de nós. Graças a Deus, nem tudo se reduz a motores e poluição. No Vinhal, na Devesa… Além dos ouriços-cacheiros, das ratazanas de água, dos coelhos e das garças, provavelmente de alguma raposa… E, tal como no Tamisa, em Londres, o nosso Pelhe também regurgita já de peixe.

A questão está em saber preservar estas espécies, afinal aclimatáveis à nossa, a humana, das menos sociáveis. Mas as criancinhas – inicialmente somos inofensivos… - gostam do passeio no parque, o carrinho cercado de aves, o peixe vermelho no lago, e, quando assim for, Famalicão crescerá no mais importante – em ambiência e em modernidade. Em qualidade de vida, resumindo.

 

(Da crónica De Torna Viagem in Cidade Hoje de 11.SET.2014)