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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Leais aconselhamentos

João-Afonso Machado, 10.07.14

A cachopa marrou-se num local e num tempo onde as perdizes são impossiveis. Estacou absolutamente, a ramada no alto e uns fetos, uns tufos de erva, a atapetarem o solo. A explicação estava na cobra já velha, mais de um metro de cobra, a mirá-la imóvel. Uma e outra com medo, incapazes de darem um passo, um serpenteio. Fosse gente, a escamada esgueirar-se-ia entre as pedras do muro mais próximo. Assim...

É o que aprendemos. Para caçar uma cobra, nada como um perdigueiro a nosso lado. Não que haja a mira em cintos, carteiras, sapatos... Apenas convém o treino, a prevenção. Ninguém conhece o amanhã e o nosso mundo político está cheio deles, ofídeos, mais ou menos venenosos.

Para quem não sabe, uma vez estacada a bicha pela presença do cão, deita-se-lhe um pau ao pescoço, de modo a imobilizar a sua cabeça. É quando cessam as mentiras, o seu eterno cissiar, o risco de qualquer dentada nos menos cautos. Depois, basta apanhá-las pela ponta da cauda e virá-las de rabo para o ar.

O resto é com cada um. Eu nunca as mato - deito-as fora.

 

 

"Triste fadário, o das nossas esquinas"

João-Afonso Machado, 10.07.14

“A Esquina” era, em tempos que já não são os de quase todos nós, a sombra e a portaria do Hotel Garantia, quando a Estrada Nacional 14 passava ali com tão escasso trânsito que o colóquio se distendia além passeio, e as fotografias o recordam quase ombro a ombro com o sinaleiro… Diz-se agora desses idos, admiradamente, incredulamente, - era o “lá vai um” O lá vai um automóvel, entenda-se, o roncar da máquina no alto da Rua Adriano Pinto Basto, ou no extremo oposto da campo Mouzinho de Albuquerque, mais o vagar de encostar um pouco à berma, sem sobressaltos, para o deixar passar. E, volvendo à normalidade, apagado o rasto da besta em correria, Famalicão retomava a sua confortável conversa de sábado pelo princípio da tardinha.

Essa era uma das muitas esquinas. Em frente ficava a da Caixa Geral de Depósitos, por exemplo. Outro convidativo poiso, ainda assim sem nome próprio. Aliás, em Famalicão uma esquina que se prezasse por norma arredondava-se, como se oferecesse uma poltrona aos estafados cavalheiros indígenas. Lembremo-nos daqueloutra da oficina das bicicletas na Praça 9 de Abril; ou a da ETC, moderníssima papelaria de antanho fronteira à Eléctrica; e a de cima, perto da BP, onde ameaçava a criançada o tormento das injecções do enfermeiro José Valinhas e, por vezes, arriscávamos a compra de um macito de cigarros em muito avinhado tasco vizinho.

São memórias vergadas ao peso de toneladas de propriedade horizontal. Até a Íris – uma esquina com formas de rampa e boxes para reabastecimento – foi adormecendo devagarinho, devagarinho, o restaurante a apagar-se-lhe o coração e a morte, enfim, anunciada nesse dia de há anos em que, justamente, tencionava visitar os seus mundialmente famosos filetes de pescada…

Assim se narra o tremendo fadário das esquinas famalicenses. Num invencível pretérito perfeito e de periscópio alçado em busca de alguma sobrevivente. Uma das poucas ameaça agora naufrágio iminente.

É a esquina das Ruas Adriano e Narciso Ferreira. Formatada num prédio amplo, revestido a azulejo – todos o conhecem – há um século residência de Zeferino Bernardes Pereira, edil-mor cá do burgo, e depois sobreposição de estabelecimentos comerciais diversos: o quiosque minúsculo da D. Conceição, a sombria barbearia do Sr. Agostinho, o cabeleireiro no andar superior… E, principalmente, o paradouro dos 7 Velhos chefiados pelo Sr. Álvaro desse apelido.

Foi incêndio que lhe deu. Foi uma perda inestimável. Parece querer alar-se como a derradeira grande esquina da Famalicão antiga. E, com ela, os petiscos (o pica-pau, a bacalhauzada) do Sr. Álvaro e família.  

Não pode ser e dizem-me não será. Houve conversações com a Câmara Municipal, as obras de restauro serão comparticipadas. Sob o ponto de vista jurídico nem algo posso adiantar – pormenor de somenos importância na redacção. Interessa é o vetusto edifício não venha abaixo nem persista naquela aparência de sem-abrigo, tão junto ao centro da Vila, desfigurando mais uma esquina famalicense.

 

(Da rúbrica Torna Viagem, in Cidade Hoje de 10.JUL.2014).