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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 18.05.14

Uns anos depois, o regresso. Lisboa sempre movimentada, solarenga, cosmopolita, de portas e braços abertos para o Cais do Tabaco (eu acabara de desembarcar em Santa Apolónia...) onde já sabia atracarem vagas sucessivas de flutuantes condomínios fechados, com piscina, courts de tenis, health clubs e tudo. Um deles debandava agora, apitando roufenhamente, num certo vislumbre bíblico de Noé rodeado da imensidão das águas. E é impossivel vir à capital sem a encontrar! Desta feita no Cais das Colunas, onde a maré beijocava os seus pés, tão delicados. Uma alegria imensa encheu-me o coração, não segurei um abracinho (tímido, é claro), ela, loira, sempre elegância e bom gosto, vivaça e sagaz - ela era para mim Lisboa. Por isso a sua omnipresença.

Creio gostou de me rever. Para onde ia?, inquiriu, ao que vinha?, quis saber. Expliquei a minha conferência sobre relíquias graníticas nortenhas, histórias de antanho, e uma visita a Campo de Ourique, urgia apanhar o "28".

- O bintóito?

- Sim, o bintóito...

- Pois vou consigo e aproveito para ver uma feira que agora fazem ali perto da Ferreira Borges.

Fomos. O bintóito a explodir de turistas, cada bilhete um assalto à mão armada, e uma súbita visão dantesca:

- Eh lá! Reina a paz em S. Bento, espero...

Que não me afligisse. Essa onda das manifs e das escaladas do escadório foi chão que deu uvas, já ninguém queria saber...

E ao meu lado conversavam dois jovens alfacinhas, na precipitação de quem vai sair na próxima paragem

- Quando for grande quero ser médico ou actor...

- Médico? Tás maluco! Isso não dá nada!

- Olha não dá nada! Dá montes de massa, meu!

- Pois eu quero desenvolver um programa de software. E depois trabalhar na Microsoft e ser tão rico como o Bill Gates...

- Eh pá!, o Bill Gates já não é o mais rico do mundo. É só o segundo...

Assim inteirado das coisas importantes da vida, assaltou-me a amarga sensação de uma conferência anacrónica, burlesca, petrificada. E, já subindo para os Prazeres, como se me acertassem com uma pedra da calçada, duas figuras razoavelmente masculinas, morenas e barbadas, as suas monas cobertas por longas cabeleiras loiras, uns vestidos descendo até os tornozelos...

- Qu'é isto?!

Sonora (e talvez exagerada) gargalhada da minha amiga.

- Vocês, minhotos, não evoluem! São apenas figurantes do teatrinho daquele externato...

- Bom, bom...

O electrico solavancou em outra paragem. Uma avantajada e acalorada senhora, dessas que não andam - atropelam, passou-lhe rente ao nariz (minha pobre amiga!), de asas bem levantadas e sem mangas. Cheia de pilosidades.

- Que nojo! Porcaria! Pivete!,

invectivava, furiosa, a sempre higiénica minha amiga. Confesso o meu temor. E se a outra ouvisse e retrucasse? Porque a minha querida amiga, as pulseiras tilintando-lhe nos pulsos, não se calava,

- Que horror! Parece um homem!

 

 

"Pior que as pragas do Egipto"

João-Afonso Machado, 15.05.14

Oriundos da Louisiana, EUA, chegaram à Península Ibérica em 1973, no maior segredo político e comercial. Corporizavam um plano concebido por empresários de Badajoz num ousadíssimo negócio do ramo alimentar. E, supostamente, haviam sido reunidas todas as precauções para isolar das populações indígenas estes misteriosos forasteiros em severa reclusão – os lagostins vermelhos.

A fuga ocorreu, porém. Através do rio Caia, um afluente do Guadiana. Assim a invasão atingiu Portugal em Elvas, incapaz de suster essa massa informe, prolífera e resistente como só ela, silenciosa, voraz, disseminando-se pela lusa pátria inteira. À passagem pelos terrenos alagadiços da bacia do Sado já lhe chamavam o monstro dos arrozais. Deslocava-se a uma velocidade incrível, na escuridão da noite e dos túneis que cavava para ocultamente, surpreendentemente, continuar a marcha implacável. Também a Pateira de Fermentelos, junto a Águeda, caiu em poder da horda dos lagostins vermelhos. Por muito que os cafés das redondezas os cozessem e oferecessem à clientela, no tempo dos pratinhos de tremoços, a acompanhar a imprescindível cerveja, nessas esplanadas debruçadas sobre águas outrora felizes e prenhes de carpas. Nada! Multiplicando-se num ritmo alucinante, o lagostim encheu a barriga dos fermentelenses até ao vómito e prosseguiu a sua imparável caminhada. Uma aguerrida, catastrófica, mancha vermelha-crustáceo acaba agora de chegar a V. N. de Famalicão.

Terão os lagostins contado com o auxílio de alguma força anti-patriótica? É o que não sabemos. Certo apenas a tropa ocupante ter bivacado no lago do Parque da Devesa.

E por lá está. Crescendo sempre espantosamente em número. Cavando luras. Tosando a vegetação. Devorando posturas inteiras de ovos, larvas, girinos, destruindo toda a cadeira metamórfica de que o Parque era rico, e os próprios anfíbios adultos, o peixinho que lhes passa ao alcance das tenazes… Já sem espaço onde caiba, tais os contingentes acumulados, convulsionando-se em sintomáticos actos de canibalismo. É quando o lagostim demandará novas paragens, outras usurpações do espaço alheio. Muitos os viram já trotando os relvados da Devesa. Quem os deterá? Às armas, famalicenses!

Se atacado, logo ergue ameaçadoramente os seus membros mandibulares. Mil cuidados! Uma vez entalados nas suas presas, só mesmo a morte do lagostim possibilitará a libertação, o termo de uma prisão dolorosíssima. E, ainda assim, tão complexamente quanto se desmonta, parafuso a parafuso, um pesado gancho de carga e descarga.

Neste comenos, não é improvável os lagostins penetrem as nossas residências. Na hora crepuscular, de pinças em riste logo que a senhora da casa os apanhe na cozinha, buscando a frescura da banca e uns restinhos de comida junto do ralo da pia.

Enfim, estão já condenados os rios, lagos, charcos, poças, ribeiros desta querida terra. Pudéssemos nós contar com o apoio da aviação… - dos falcões, milhafres, das garças… Porque os patos do lago do Parque são como as corvetas da Marinha para as lanchas dos contrabandistas – não chegam. Vozes longínquas invocam um casal de lontras, a preciosa ajuda prestável por esses quiméricos habitantes da Devesa. Ora! As histórias de submarinos têm sempre em Portugal um menos confessável fim…

Saibam, por isso, os famalicenses congregar esforços para salvar a sua Famalicão. Fosse isto tudo mais um devaneio de Orson Welles e eu não diria: espessas nuvens de maldição e praga pairam sobre ela. 

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 15.05.2014)

 

 

 

Jantar-tertúlia sobre uma Casa minhota

João-Afonso Machado, 13.05.14

A casa não é minha. Eu é que sou da Casa. De Pindela. O neto mais velho do meu Avô, de quem, aliás, herdei o nome entre outras particularidades mais como, por exemplo, um respeito agudo pela liberdade e pela (minha) independência. Por isso, nem preciso viver em Pindela para a trazer no coração e saber razoavelmente tudo o que é possível saber da sua História. Uma riqueza minha, entranhada no meu sangue, transportada comigo para onde quer que vá ou esteja.

E gosto de contar a História de Pindela. Não sou genalogista, embora conheça de cor a genealogia da Família. Outros a tinham estudado já e basta-me a certeza de que ela é rica, como a das principais Casas minhotas. Mas toda a minha investigação foi para o modo como viviam as gentes de antigamente. De tal maneira que, costumo dizer, convivo com os meus antepassados diariamente, conheço as facetas de cada um, o seu contributo para o lavrar e manter daquelas pedras. Vão estas um dia, porventura, que os factos ninguém os arranca ao historial de Pindela. Através do Passado ajuizo do Presente e antevejo o Futuro. Assim viverei, assim aprendo a ser feliz. Na fidelidade à Monarquia que os meus Avós me transmitiram.

Gosto de contar a História de Pindela, referi. Escrevi-a, além do mais. Ainda agora tenho no prelo mais um livro sobre um bom lote de peripécias de que foi autora ou testemunha. Tudo abordarei na próxima sexta-feira, dia 16, em Lisboa, num jantar-tertúlia (restaurante Clara-Jardim, no Campo dos Mártires da Pátria) promovido pela Associação Portuguesa de Genealogia.

Estão todos convidados...

 

 

 

 

 

Fátima

João-Afonso Machado, 12.05.14

Terminarão o seu curso hoje. Milhares e milhares de peregrinos. O seu caminho foi Fátima e a sua única preocupação foi ir e chegar. Dir-se-ia, à margem do mundo, não integrassem eles parte substancial dessa vida em que todos participamos também.

Conheço os meandros. Sei das suas dores. Do seu silêncio, só não total porque não passa despercebido - para o bem ou para o mal.

Ocorrem-me tolices estatísticas e desnecessárias. Os peregrinos de Fátima nada querem saber delas. Vão porque um certo sentido da Fé os leva. Qual? Perguntem-lhes. Eles vão e vão e voltam a ir. Porque não desistem? - essa a questão fundamental. Responda quem souber. Quem, de ciência certa, souber.

E, já agora, experimentem ir. Vivam a proximidade do Santuário. Se nada sentirem então, dêem o esforço por inútil. Não creio a hipótese mais provável. Há ali qualquer coisa que nos toca e nos move.

Alienação, dirá sempre a tontice...

Contudo, a mais soberba demonstração da liberdade do Homem - ir, ir, ir. Jamais chegando, e por isso voltando. Essa a verdade.

 

 

 

O hacker limiano

João-Afonso Machado, 11.05.14

Foi há dias. O painel electrónico no Largo de Camões, junto à ponte velha, em Ponte de Lima, subitamente entrou a transmitir pornografia pura e dura. Apurou-se depois, um hacker acedera à câmara de vídeo nele incorporada e assim se entreve. Com muita aplicação, de tal modo que, chegando a PSP ao local, de imediato alterou o registo para filmes policiais; e assim um funcionário municipal cobriu com um saco preto o dito painel, rematou a sessão com farta dose de insultos publicados no ecrã.

Provavelmente aquela hora nem estariam crianças nas imediações. A saúde dos adultos não sairá prejudicada com a exibição. Fica apenas a atitude provocatória do pirata: porquê?, para quê?

Tratar-se-ia de outra forma de protesto político? Oxalá. E, se for o caso, oxalá seja reivindicada a acção e enunciados os seus propósitos. Oposição desta é a que se quer.

Como brincadeira - se tal o propósito do talentoso informático - não parece a mesma tenha sido especialmente admirada. De qualquer modo ficará sempre merecedora de reflexão a tortuosa mente de quem assim se ocupa. Que tal tentar engatar uma miúda e levá-la a passear à noite para os areais do Lima?

 

 

 

 

Dinossauros...

João-Afonso Machado, 09.05.14

O meu Ex.mo Colega, o Senhor Bastonário Dr. António Marinho Pinto, deixou-me ontem sem saída. Com um imenso ponto de interrogação profissional, politico, porventura existencial, pela frente. O meu Ex.mo Colega, tomei conhecimento em entrevista sua à Televisão, vai candidatar-se ao Parlamento Europeu. Não consegui alcançar integrando qual lista, mas - isso sim, ouvi, depois de ter desancado Durão Barroso - parece que projecta aproximar-se dos grupos ecologistas, se for eleito, é claro.

Depois principiou o caos. Assim que instado sobre o exercício da advocacia e o cargo de deputado, à mistura. O Senhor Dr. Marinho Pinto distinguiu o honesto advogado de pasta na mão e toga debaixo do braço, pululando de tribunal em tribunal, daquela outra pululação nos corredores do santuário legislativo, onde os colegas das mega-sociedades negoceiam favores normativos para os seus clientes. Uma verdade inequívoca, o Senhor Dr. Marinho Pinto faz muito bem em denunciá-la, só não se compreende porque o faz em nome da "ética republicana", sob cuja égide afirma candidatar-se.

Talvez levado pelo sangue bravo das palavras, o Senhor Dr. Marinho Pinto assim deitava ferozmente abaixo, na sua entrevista, todo o edifício de S. Bento. O tal que uma manifestação inteira de polícias não logrou sequer subir a escadaria. Pois o meu ilustre Colega varreu-o de uma varridela só, ao esvaziá-lo da "ética republicana" que quer só sua, a pasta e a toga encostados a um canto esquecido do Parlamento Europeu onde, mais ecologia, menos ecologia, sabemos do seu programa de actuação apenas constar a dita "ética republicana", essa tonta, que tanto se encarrapita numa tartaruga gigante, algures no planeta, como vai caçar aos domingos em viaturas do Estado conduzidas por motoristas do mesmo.

Como subsistirá a República sem a fonte legislativa que o Senhor Dr. Marinho Pinto destruiu?

De que viverão agora os advogados - os habitués dos gabinetes parlamentares e os outros, os da barra?

Quem sou eu, advogado destituído de "ética republicana", sem tartaruga nem combustível e chauffer do Estado?

Têm a certeza de que os dinossauros se extinguiram?

 

 

 

 

 

Vale sempre a pena...

João-Afonso Machado, 07.05.14

Os minutos têm o andar das pedras. E o relógio corta como um glaciar em que o tempo congelou a História. Não fora assim, o regresso seria somente um retrocesso. Uma cruz coroada de cardos, em vez de uma promessa sempre renovada. E o sonho um pesadelo.

Escuta-se o alvoroço do coração, tal o temor do descaminho. O oceano é um relatório completo de tropelias, como vão em tropel as emoções, a expectativa. Enfim, lá longe um sinal. A vida respira fundo, aliviadamente.

É o momento dos sorrisos, aquele abraço de boas-vindas e duas lágrimas em segredo, sabiamente escorrendo sob a pele, muito nossas, da nossa alma. Não há perdas a registar. O regresso venceu os enigmas das águas turvas e revoltas.

E resta o sono repousante da noite, onde desfilam imagens tranquilas de todos os amanhãs. Em lentos movimentos de uma estrela-do-mar.

 

 

 

 

 

Vota PS!

João-Afonso Machado, 05.05.14

A culpa vai por inteiro para Oliveira Salazar. Foi ele quem durante décadas fez tábua rasa daquilo que é essencial no ser humano - a sua liberdade; e manteve fechada, sempre mais recheada, a lata de bolachas onde acumulou toneladas de ouro. O resultado não podia ser outro: uma revolução sem quaisquer preocupações reformistas e essa riqueza toda derramada pelos quatro cantos dos poderes públicos. E libertinamente gasta, com Mário Soares à frente da fanfarra, en tour mondial a tous ses amis.

E assim chegámos à actualidade, com os portugueses a terem de pagar S. Ex.cia o Estado - depois de esvaziada a dita lata de bolachas -  e sem economia a consentir-lhes receita credível. Uma desgraça! A famigerada crise! Fervilhando sob os nossos pés até à sua formidavel erupção no consulado de Sócrates I, por cognome o Parceiro Público-Privado.

Vão lá dois anos dramáticos, é certo. Com o Governo navegando muitas vezes à vista, sem norte e sem inspiração. Tentando bolinar, meter água o menos possivel. Fazendo o que podia entre o canto traiçoeiro da Esquerda radical e o oportunismo palavroso dos socialistas.

Podia ter sido feito melhor? Sem dúvida. Haverá quem fizesse melhor? É duvidoso. Não se percebe surgisse alguém capaz. No entanto, é inegável a inclinação dos portugueses para se deixarem seduzir por sereias, além do mais gastadoras (não, não me refiro às oriundas do além-mar brasuca...).

Dai a premente necessidade de entregar a governação a Seguro (ou a Costa?). Foi assim também que os franceses estão aprendendo com Hollande.

Post-scriptum: se este apontamento se cruzar com algum governante a sério, por favor queira dá-lo (ao apontamento) sem efeito.

 

 

E depois de Maio?

João-Afonso Machado, 03.05.14

A decisão - agora sim, parece que definitiva - da saída de Portugal do programa de ajustamento directamente para os mercados, sem recurso a medidas cautelares e com o apoio dos parceiros europeus, já suscitou as habituais reacções da Esquerda mais obtusa - que a Troika vai mas fica a pobreza, que assim obrigado, todos a apertar o cinto, etc, etc. Como se a "crise" não fosse isso mesmo, as dificuldades a baterem-nos à porta - à porta de todos, com excepção da rapaziada da política e dos sindicatos - e a mandarem-nos um sortido imenso de privações, designadamente de natureza fiscal.

É o Estado e a sua obesidade intratável. Enquanto os portugueses não ousarem optar pela recta anarquia, dando a voz ao Poder Local, não se legitimarão S. Ex.cias para criticar quem quer que seja, ou chorar quaisquer misérias suas. Mas essa é outra questão e hoje, aliás, não é dia de apologética. Somente de alguma especulação sobre a reacção do inefável PS à sobredita notícia.

Os socialistas não podem baixar os braços nem reconhecer méritos alheios. Em cada socialista há, por regra, um sócratinhos escondido, e vai daí... Mas como sair desta onde, consta, os países da UE se disponibilizaram já para apoiar Portugal em caso de necessidade? A quem atribuiram uma medalha de bom comportamento, tal qual a Irlanda?

Parece evidente que o PS tentará uma saída pela porta da esquerda, fazendo coro com os comunistas na critica à governação da Direita. Vencendo, como é de supor, as eleições europeias ajustarão depois o discurso nas instâncias correlativas, porque com essa gente, menos desmemoriada, não se brinca. E, enfim, sofrerão a partida - tão saborosa quão involuntariamente pregada - de ganhar as próximas Legislativas. Já imaginaram os dirigentes do PS às aranhas com as artes orçamentais, decidindo igualzinho ou pior do que os artistas PSD?

Os verdadeiros homens são sempre homens de fé - e, desta vez, de certeza os portugueses não vão esquecer esta imprescindível comparação.

 

 

É necessário expropriar

João-Afonso Machado, 02.05.14

Há um aspecto importante que este intervalo entre o 25 de Abril e o 1º de Maio - e os tempos que o antecederam e lhe estão a suceder - bem destaca e revela a predominância da Esquerda numa Imprensa ainda e sempre demagógica. Qual seja o dito aspecto a apropriação pela dita Esquerda de uma Revolução que os portugueses julgaram e quiseram nacional. Em suma, debalde se apregoou, no seu quadragésimo aniversário, o 25 de Abril o dia histórico da afirmação da liberdade.

O que, contas feitas, impõe a precisão do 25 de Novembro como a data - a grande data! - impeditiva de que o 25 de Abril não resultasse apenas num 28 de Maio de sinal contrário. 

Em má hora a florista da Baixa lisboeta - ainda agora entrevistada - enfiou um cravo vermelho no cano de uma das muitas G3 esse dia povoando a cidade. Em má hora! Fosse a flor branca e a Esquerda teria de puxar pela imaginação para encontrar outro símbolo para a Revolução. O cravo imaculado seria sempre um sinal de paz e, por trás das ilusões ou dos sonhos dos portugueses, já muitos queriam o confronto, a guerra.

Como actualmente continuam a querer. A liberdade é algo longe dos seus espíritos, incapazes de alcançar mais do que a reivindicação pela reivindicação, o antagonismo pelo antagonismo. Somando Vasco Lourenço ao enunciado - façam-lhe justiça: em Abril de 1974, o que sabia ele do socialismo?... - o protagonismo pelo eterno protagonismo.

Assim as agradáveis comemorações se transfiguram em difíceis efemérides. A não ser que voltemos às expropriações, desta feita para realmente dar o seu a seu dono - a liberdade a nós próprios.

 

 

 

 

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