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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Um Piquenicão"

João-Afonso Machado, 29.05.14

Uma dessas manhãs em que deambulava pelo Parque da Devesa à caça de umas imagens bonitas, o sono do Pelhe e adjacências quebrou-se de supetão com aquele brado imenso da criançada saltando dos autocarros. Eram muitos, muitíssimos! Por muito poucos filhos que os casais de agora possam permitir-se…

Eram umas centenas, vindos em magotes compactos e distinguíveis pelas cores diversas de cada clã. De cada “jardim de infância”, decifrando. E devidamente escoltados pelas suas educadoras e vigilantes, um escol onde o “M/F” ainda pende bastante para o lado do “F”.

Naquela idade, já tão distante, lembro vagamente umas dolorosas idas a um colégio do Porto e umas batas negras com um cinto vermelho, ríspida vestimenta generalizada, demoníacos intervalos na quietude dos meus dias na quinta, entre cães e gatos e a capoeira, mais o respeitinho devido ao bufar e às bicadas dos gansos. Recordo ainda, por isso, a espada de madeira e o escudo feito de uma tábua, sempre que me aventurava a buscar ovos… Seria também assim com a horda acabadinha de desaguar no Parque?

Sentei num banco sobranceiro ao lago e afiei a atenção. Ali não se ouvia chorar, ninguém pedia a mãe e o espaço parecia pouco, incapaz de conter o irrefreável ímpeto para a brincadeira. Formadas em coluna, disciplinadamente desconforme, as maltas dirigiram-se para a Casa do Território, onde as esperaria a costumeira prelecção. A Natureza também se explica e é da maior utilidade se saiba como é uma galinha antes de as suas coxas serem compradas no supermercado; e que não se deitam papeis para o chão nem poluentes para as águas fluviais ou outras; etc, etc.

Há-de ter sido assim, não acompanhei a formatura. Voltei a pôr-lhes o olhar em cima no anfiteatro, onde se esfalfaram em danças e ginástica rítmica, e em quantas cabriolices se seguiram relvados fora. A lembrar os idos em que as minhas pilhas orgânicas eram de duração assim longa, sonora, movimentadíssima. E os festivos momentos da Escócia paradisíaca, estavam ali os Duffs de Telhado, os Munrós de Cruz, os MCDonalds de Gavião, a mostra de todos os clãs e dos seus quadradinhos e cores. Houve jogos tradicionais, corridas de sacos, sei lá o que mais!... E de onde provinham os ilustres olímpicos?

Segredou-me um outro circunstante, pessoa amiga e fiável, tratava-se do Mega-Piquenique do Pré-Escolar do Agrupamento D. Maria II. Um evento infantil de monta, prenúncio do final do ano lectivo. Via-se bem, uma espécie de prémio, uma ante-despedida, um sorriso prazenteiro em cada carinha laroca.

Chegara a hora das minhas barbas brancas debandarem. Era, outrossim, a hora das toalhas na relva e da merenda – as sandes, os rissóis, os bolinhos de bacalhau, as bebidas… e o bolo de aniversário, porque, entre tantos, impossível seria alguém não festejar o seu. Soaram galhardamente os hinos de parabéns, de ponta a ponta do Parque.

E nem as migalhas se perderam. Labuzaram-se com elas os minorcas do Pelhe, desde o peixito que ali abunda a essa família numerosa de anatídeos – pronto: os patinhos – cuja navegação diariamente nos delícia.

Uma festa, em suma. A felicidade na sua idade excelsa. Tudo a impor a conclusão de que essa noite ninguém fez birra de recolher à cama e dormir.

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 29.MAI.2014).